Construção
Domingos Bezerra FilhoDomingos Bezerra Filho é teresinense de Campo Maior. Jornalista, escritor, professor com pós-graduação em Comunicação, Turismo e Desenvolvimento Sustentável. E-mail para contato:Domingosfilho@gterra.com.br
O ministério de Dilma Rousseff: em vez de ousadia, medo
Carlos Chagas
Concluído hoje o segundo mês do governo Dilma Rousseff, confirma-se a impressão dos primeiros trinta dias: fora algumas exceções, o ministério ainda não entrou em campo. Assustados com os puxões de orelha que a presidente aplicou em quatro ou cinco ministros, nas duas semanas iniciais, os demais encolheram-se. Nem a agenda de trabalhos diários eles divulgam. Ignora-se se estão em Brasília ou viajando. Seus planos, programas e metas permanecem em segredo, se é que existem. Despachos pessoais com Dilma, nem todos tiveram até agora. Melhor assim, pensam muitos: pelo menos evitam cobranças e admoestações.
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O governo funciona por obra e graça de sua chefe e do grupo de ministros palacianos, mais um ou outro convocado para debater temas onde bissextamente entra matéria de suas teóricas atribuições.
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Com todo o respeito, mas o que fazem os ministros dos Transportes, das Cidades, do Turismo, da Pesca, do Desenvolvimento Industrial, do Desenvolvimento Social e quantos outros? Falta-lhes coragem para ousar, sobra-lhes medo de desagradar.
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Trata-se de uma situação singular quando comparada com administrações anteriores. Nos governos do Lula, Fernando Henrique, Itamar Franco, Fernando Collor e José Sarney, havia ministros de primeira e de segunda classe, conforme suas performances, mas compareciam todos nas manchetes de jornal e nas telinhas. Não se omitiam. Agora, o risco é da existência de um monte de não-ministros.
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A pergunta que se faz é se essa evidência favorece ou prejudica o governo. Porque em administração, tanto quanto na política, não há espaços vazios. Além de presidente da República, Dilma Rousseff tem sido a ministra de todos os ministérios, a diretora de todos os departamentos e a chefe de todas as seções do serviço público, além de presidir e dirigir todas as empresas estatais. Por isso, não raro, permanece até onze horas da noite em seu gabinete. Delegar não parece sua característica principal. O risco é de, preocupada com os detalhes, faltar-lhe tempo para o conjunto, quer dizer, preocupada com cada árvore, carece de condições para cuidar da floresta.
Folha 90 anos: nos jornais a História não espera o amanhecer
Pedro do Coutto
A Folha de São Paulo, um dos maiores e mais importantes jornais brasileiros, editou sábado caderno especial sobre a passagem de seus 90 anos de circulação. Começou em 1921, governo Epitácio Pessoa, véspera – pode-se dizer assim – dos movimentos tenentistas que contestavam a estrutura do poder político e que criaram um processo de cultura cujo desfecho foi a revolução de 30 que levou Vargas à presidência da República.
Da mesma forma que O Globo, O Estado de São Paulo, o Correio da Manhã, que morreu em junho de 74, a Tribuna da Imprensa, em cujo site escrevemos, o Jornal do Brasil que saiu de cena no ano passado, e o Jornal do Comércio, a FSP traduziu a História do Brasil para milhões de leitores de ontem e de hoje. E continuará exercendo a bela missão de informar e opinar para os eternos leitores de amanhã, aqueles, como disse Brecht, que vierem depois de nós.
Este, acima de tudo, é o destino dos jornais e das revistas. Refletir o conteúdo dos fatos no espelho da existência. Como digo sempre, a imprensa não cria ou produz fatos. Divulga-os, através, é claro, de um critério seletivo diário. Se no Cairo, por exemplo, morrerem cem pessoas e forem feridos 400 nos protestos contra Mubarak, a imprensa não é responsável pelos acontecimentos. Ela os testemunhou e, democraticamente, os colocou ao alcance de todos. Por um prelo acessível à grande maioria.
Não conheço processo informativo mais simples e direto do que a leitura dos jornais para a sociedade se inteirar em profundidade de tudo o que ocorre no país e no mundo. Num espaço de tempo de 24 horas. Pois como definiu o historiador Hélio Silva, ao acentuar o sentido de urgência os acontecimentos, a história não espera o amanhecer.
Ela está toda escrita nas coleções dos jornais que citei há pouco e para que alguém tome conhecimento, hoje, basta acessar a Internet. Está tudo lá. Ou então visitar os salões da Biblioteca Nacional na Avenida Rio Branco. Em matéria de episódios, todos nós, leitores diários, poderíamos citar centenas de exemplos impactantes. A Coluna Prestes-Miguel Costa. A Revolução de 30. O Estado Novo de 37 quando Getúlio Vargas implantou a ditadura que durou até outubro de 45. A redemocratização deste ano. A vitória de Eurico Dutra nas urnas. O retorno de Vargas pelo voto em 50. A eleição de Juscelino em 55 que exigiu dois movimentos militares, 11 e 21 de novembro, para que assumisse em 56. A renúncia de Jânio Quadros. A posse de João Goulart. A queda de Jango, a ditadura militar que durou de 64 a 85, a volta das eleições diretas, em 89, etapa que sucedeu a vitória indireta da chapa Tancredo Neves-José Sarney, em 85.
Estou, como se vê, me restringindo à História do Brasil. Está tudo lá nas páginas nervosas e sempre urgentes da imprensa. A criação da CLT. O atentado a Lacerda. O suicídio de Vargas. Ao alcance de qualquer um. O ataque integralista, braço do nazismo de Hitler em nosso país em maio de 38, no qual Vargas quase perde a vida.
São, todos estes, capítulos bastante expostos. Porém, existe um pouco exposto, desvendado em 76 ou 77 pelo grande jornalista Marcos Sá Correa, então do Jornal do Brasil. Falava-se na influência de Washington, em 64, na queda de João Goulart. Os adeptos do regime militar, claro, negavam. Para estes, o general Vernon Walters, da CIA, não existia.
Marcos Sá Correa foi ao Texas. Obteve facilmente os documentos oficiais na Biblioteca Lindon Baynes Johnson e os publicou. Eles narram a trama e toda a participação americana no golpe de Estado. Uma engrenagem sinuosa do poder internacional foi desvendada. A matéria foi fantástica. Sá Correa iluminou uma face oculta da história do Brasil. É isso. A memória nacional está nos jornais. Parabéns à Folha pelos noventa anos.
Pedro Simon: mais um gesto de coragem
Carlos Chagas�
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Pecado, ele não cometeu. Sequer um erro. Tinha direito, como ex-governador, a requerer aposentadoria, vinte anos depois de deixar o palácio Piratini. E o fez por razão simples: disposto a não se candidatar a mais um mandato no Senado, tendo doado todos os seus bens à Ordem dos Franciscanos, aos 85 anos Pedro Simon ficaria sem meios para sustentar mulher e filhos.�
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Seguiram-se manifestações de desapontamento, não dos poucos adversários que o criticam por qualquer pretexto, mas de alguns admiradores desinformados de sua situação financeira. Ficou preocupado, sem dormir. Pensou em renunciar, não só à aposentadoria, mas ao próprio mandato de senador. Consultou amigos e terça-feira decidiu: enviou ofício ao secretário de Fazenda do Rio Grande do Sul, com cópia para o presidente do Senado, abrindo mão de receber o benefício enquanto viver. Mas garantindo para a família, no futuro, renda capaz de sustentá-la.
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Já não se fazem políticos como Pedro Simon. Aliás, um dos sobreviventes dessa categoria em extinção, Paulo Brossard, contribuiu para a decisão. Pelo telefone, de Porto Alegre, o ex-senador e ministro do Supremo Tribunal Federal ponderou: “O que farás quando voltares ao Sul? Aos 85 anos, recomeçarás a advogar?”
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Conhecedor da História dos pampas, Brossard lembrou as agruras porque passaram Julio de Castilhos e Raul Pilla, na velhice. E estimulou o amigo a adotar a iniciativa agora verificada.
Só ficam faltando Marcos Valério e Erenice Guerra.
Quando o artista plástico e animador cultural americano Andy Warhol previu que as pessoas passariam a ser famosas por apenas 15 minutos, nem imaginava que um dos maiores líderes da ditadura militar brasileira, o general Golbery do Couto e Silva, aproveitaria a frase genial para criar outra: “A memória das pessoas dura apenas 15 dias”.
Paradoxalmente, quem agora segue essa filosofia do criador do Serviço Nacional de Informações (SNI) é o PT, que se empenha em passar a borracha na sua conturbada trajetória, para tentar esculpir uma imagem imaculada diante da História contemporânea.
Sem esperar a decisão do Supremo Tribunal Federal, o PT prepara a volta triunfal de José Dirceu e dos outros companheiros que mancharam o nome de um partido que tinha tudo, mas tudo mesmo, para tornar-se um exemplo e se consagrar como uma opção limpa e sem os vícios que marcam todos os demais partidos políticos existentes no país.
Isso mesmo, não há partidos imaculados no Brasil. E no resto do mundo (com as indefectíveis raras e honrosas exceções), também não. De uma forma ou outra, a política está sempre envolvida com a lama. Se você entra na política ou com ela se envolve, acaba enlameado ou, no mínimo, respingado.
Até mesmo o Partido Verde, com bandeiras tão saudáveis e inocentes, está contaminado. Sua direção nacional vive às custas do PV, ou melhor, às custas do erário público, através do generoso Fundo Partidário mantido pelos impostos. Até as contas pessoais do presidente nacional do PV (luz, água, gás telefone) eram pagas pelo partido.
As contas apresentadas à Justiça Eleitoral pelo PV eram bisonhas e mostravam até formação de quadrilha para dilapidar os recursos. E o que aconteceu? Nada. A direção do PV apenas reconheceu a existência das irregularidades e restituiu o dinheiro. Usando, é claro, os recursos do Fundo Partidário. Que Justiça Eleitoral é essa?
O PCdoB, que também devia ser imaculado, é um cabide de empregos públicos, virou um PMDB em menor escala, que apóia quem estiver no poder. Mas o que esperar de um partido onde até hoje os funcionários e filiados se tratam de “camaradas”? É muito ridículo esse tipo de tratamento, na época em que vivemos.
Agora, vem o PT fingindo que o mensalão não existiu. Mesmo acusado pelo procurador geral da República de ter sido o “chefe da quadrilha”, o companheiro José Dirceu já está mais do que recuperado. È ele quem manda hoje no partido, o presidente José Eduardo Dutra não passa de um fantoche. O PT nem se preocupa mais com o julgamento que haverá no Supremo, abrangendo 40 réus, como Dirceu e Delubio. O partido acha que o escândalo já caiu no esquecimento, quer sepultá-lo de vez..
Além de Dirceu, o tesoureiro Delúbio Soares, que foi expulso pelo PT, também será recebido de volta. E vem aí Silvio Pereira, o ex-secretário-geral, que se desligou em 2005, quando foi comprovado que recebeu favores de uma empresa que mantinha contrato com a Petrobras, inclusive uma camioneta Land Rover zero quilômetro.
Pouca gente se lembra que Silvinho, para se livrar de condenação no escândalo do mensalão, foi condenado a prestar serviços voluntários . Agora que sua pena está no final e os 15 minutos de memória popular já passaram, ele está confiante de que voltará aos quadros da legenda, junto com o amigo Delúbio Soares.
E a direção concorda, apenas teria sido orientado Silvinho a aguardar alguns meses para dar entrada no processo, de forma a evitar desgaste no trabalho de solidificação do governo de Dilma Rousseff.
“Não chegou nada para mim, mas uma pessoa de expressão como o Silvio vai conversar lá por cima (direção). A volta dele é tratada em nível nacional” – disse João Góes, presidente do Diretório de Osasco, ao repórter Flavio Freire.
Era em Osasco que o petista estava filiado antes do escândalo. Pelo estatuto do PT, ele deveria pedir filiação na esfera municipal, mas há jurisprudência para que ele volte sem cumprir os trâmites normais.
“O próprio presidente Lula já abonou a ficha do presidente do Corinthians” – lembrou Góes, num argumento que dá fôlego para Silvinho retomar poderes dentro do PT.
O repórter Flavio Freire disse, ainda, que a discussão sobre o retorno de Silvinho ganhou força com a decisão da direção petista em reabilitar o deputado cassado e ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Na plenária do Diretório Nacional, realizada pouco antes da comemoração dos 31 anos do PT, em Brasília, foi lançada uma mobilização em defesa de Dirceu, de quem Silvinho foi braço-direito.
“Uma coisa é o Delúbio, que foi expulso. Outra é o Silvinho, que pediu desligamento. Estatutariamente, ele pode pedir filiação no Diretório de Osasco” – assinala Francisco Rocha, líder da corrente interna do PT Construindo um Novo Brasil, da qual Dirceu fez parte, acrescentando que um eventual regresso de Silvinho deve seguir o regime estatutário.
Como se vê, o PT se julga mesmo acima da lei e da ordem, seus dirigentes nem ligam para o Supremo, é como se já conhecessem o teor do parecer do relator Joaquim Barbosa, que ainda não foi apresentado, e já soubessem o resultado do julgamento, que nem tem data para se realizar.
Em meio a essa estranha situação, surge a pergunta que não quer calar. E o publicitário Marcos Valério de Souza, um dos principais personagens do escândalo do mensalão, e o único a ser preso pela Polícia Federal? Embora não tenha a sorte de pertencer ao PT, ele também certamente já se tornou “um cidadão acima de qualquer suspeita”, como Dirceu, Delubio e Silvinho. Para citar outro filme famoso, Valério é hoje “o homem que sabia demais”. E a ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, está na mesma condição. Não tarda a ser recuperada.
Resumindo: é triste, muito triste mesmo, viver num país em que não existe um só partido realmente confiável, e a política se transformou nesse espetáculo bufo que insistem em apresentar. É por isso que a imensa maioria dos jovens despreza a política. Não lhes faltam motivos. Nossa geração, que está no poder, é um fracasso. Que os jovens nos perdoem.
(Carlos Newton )
ABL 113 anos: viagem no tempo a um templo da cultura
Pedro do Coutto
Belíssima a edição do relatório das atividades da Academia Brasileira de Letras, administração de Marcos Vilaça, 2010, ano em que a Casa de Machado de Assis comemorou o centenário de morte de Joaquim Nabuco, intelectual, jornalista, escritor e diplomata, o gigante da abolição da escravatura. A ABL comemorou também seus 113 anos de fundação por Machado de Assis, pelo mesmo Nabuco, por Rui Barbosa, entre outros vultos que formam o elenco humano das altas passagens de nossa história.
Aliás, com o relatório assinado por ele e também pela acadêmica Ana Maria Machado, o Petit Trianon, réplica do que se encontra em Versalhes, nos propõe: uma viagem através do tempo a um templo da cultura. Mas não um centro estático de irradiação e reflexo do talento humano. Mas sim um pólo dinâmico que iguala passado e presente em nossa memória. Pois como Ferreira Gullar escreveu recentemente na sua página de domingo na Folha de São Paulo, não
pode existir pensamento sem memória.
Abre-se o relatório, nota-se a leveza dos textos quanto a beleza das imagens. E em meio a essa nuvem de conhecimento e tradição fazemos a viagem expressa entre o final do século 19 à segunda década do século 21. O prédio da Presidente Wilson, onde a Academia está até hoje, foi doado pela França, em 1923, como homenagem às comemorações pelo nosso primeiro centenário de independência, ocorrido um ano antes.
Seminários, painéis, literatura, música popular brasileira, futebol e literatura, a mulher hoje no Brasil, cinema, teatro, música, vozes da imigração, biógrafos e caçadores de almas. Foram temas que Marcos Vilaça encenou e abrilhantou expondo-os com seu talento e sua personalidade marcante.
São todos fatores de cultura, múltiplos como ela, pois a cultura, acima de tudo, como certa vez definiu um amigo meu, é a passagem do ser humano pelo mundo, seu eco, seu rastro, sua sombra. Deixa nesse rastro, como costuma acentuar o próprio Marcos Vilaça, com elegância, suas impressões digitais. Elas, as digitais, estão nas pirâmides dos séculos que tanto encantaram Napoleão, início de 1800, em sua passagem no Egito. Sobre os biógrafos não conheço melhor denominação que a de caçadores de almas. Inclusive porque biografias podem mudar com o tempo. Não em função de fatos, mas face as interpretações deles. São dinâmicos como o próprio processo de cultura que é inesgotável.
Como aliás, ao falar sobre a obra de Karl Marx, definiu com total propriedade o filósofo Leandro Konder, em entrevista ao Caderno Prosa e Verso de O Globo de 29 de Janeiro. O real, afirmou, é inesgotável, irredutível ao conhecimento crítico. Tem sempre algo a nos dizer que não entendemos ainda. E as gerações que se sucedem vão captando, vão percebendo, vão compreendendo, vão traduzindo. Pois, agora para mim, a vida é uma tradução permanente de atmosferas que envolvem as palavras. As palavras, sozinhas, nem sempre dizem tudo. Há muito a descobrir das situações humanas.
É este esforço que caracteriza a atuação de Marcos Vilaça: fidelidade ao dinamismo do tempo e das épocas, no rumo do futuro. Que, um dia, legaremos todos aos que, como disse Bertold Brecht, vierem depois de nós. E aqui, contemplando a bela edição da ABL 2010, deixo a pergunta para Vilaça e os acadêmicos responderem: as obras de arte dos séculos 20 e 21 serão, até daqui 200 e 300 anos, tão eternas como as da Renascença? Eis aqui projetado um patamar para um debate intelectual.
Serviu para eleger. Servirá para governar?
Carlos Chagas
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Completado o primeiro mês de governo de Dilma Rousseff e evidenciada a diferença de estilo entre a presidente e seu antecessor, a pergunta que se abre é se vai dar certo. Vai? Depende. As oposições, do PSDB ao DEM, não estão nem aí para exercer seu papel. Preferem dedicar-se a disputas internas, muito mais acirradas do que as não travadas com o governo. O máximo a que chegaram ficou por conta do ex-presidente Fernando Henrique, ao acentuar dificuldades em entender os raciocínios de Dilma.
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O obstáculo que a nova presidente precisará superar emerge de sua própria base política. Chama-se fisiologismo. PT e PMDB travam guerra nem tão surda assim pela ocupação do poder. Os companheiros celebraram a queda dos adversários, de seis ministérios no governo Lula para três, no atual. E menos importantes que os anteriores, em termos de verbas orçamentárias.
A corrida chegou a tal ponto de insensatez em busca de cargos no segundo escalão que Dilma precisou interrompê-la, adiando as nomeações para fevereiro. Mas fevereiro está aí, com o início dos trabalhos do Congresso. Caso o PMDB se sinta desalojado e desprestigiado, será inevitável que dê o troco. Nesse ponto repousam o sucesso ou o malogro político do governo.
Projetos de interesse do palácio do Planalto começarão a ser examinados, começando pelo novo salário mínimo. Uma derrota inicial poderá desandar a base parlamentar. Só que para evitá-la será necessário ceder e nomear peemedebistas aos montes, a maioria dos quais sem as pretendidas qualificações técnicas. Para eleger-se, a presidente precisou do apoio do PMDB. E para governar, prescindirá do partido?
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Alckmin 'herda' R$ 307 mi em contratos de publicidade
O governo Geraldo Alckmin (PSDB) herdou da gestão dos também tucanos José Serra e Alberto Goldman 22 contas de publicidade que somam R$ 307,6 milhões, valor equivalente a seis vezes o orçamento da Secretaria da Pessoa com Deficiência. São contratos assinados pela extinta Secretaria de Comunicação (Secom) - hoje subsecretaria -, por oito empresas, duas fundações e uma autarquia e prorrogados no fim do ano passado. A maior parte dos acordo vigora ao menos até maio.
Na primeira semana de governo, Alckmin anunciou o remanejamento de R$ 24 milhões do orçamento de comunicação para o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), que a usará para desassorear a calha do Rio Tietê, e a revisão de todos contratos do governo Serra/Goldman. Na sexta-feira, contudo, o governo informou que ainda não há nenhuma decisão sobre redução dos negócios ou cancelamento de campanhas publicitárias.
Durante a transição, reservadamente, o atual governador reclamou com interlocutores que, do seu ponto de vista, Serra havia exagerado no gasto com publicidade. Só a Lua Branca Propaganda, agência de Luiz Gonzalez, marqueteiro das campanhas de Alckmin ao governo e de Serra à Presidência em 2010, mantém três contas semestrais no valor total de R$ 87,6 milhões. Duas delas (de R$ 34,6 milhões e R$ 17 milhões) são com a Secom para as campanhas da Nota Fiscal Paulista, Lei Antifumo e do mínimo paulista, entre outras, e uma com a Dersa (R$ 36 milhões), estatal responsável pelo trecho sul do Rodoanel e pela ampliação da Marginal do Tietê.
Alckmin informou em nota que os valores previstos nos contratos com as agências podem não ser integralmente pagos. "O desembolso dos recursos previstos no Orçamento dependem da autorização dos órgãos contratantes, que podem ou não executar serviços de publicidade durante o período de vigência dos contratos", diz a nota. Segundo a assessoria, "os contratos não geram direitos para as agências" e "a execução se dá conforme a necessidade" de cada órgão. As informações são do Jornal da Tarde.
Mercadante já recebeu o título de “doutor em Economia” da Un
Carlos Newton
Nenhum jornal noticiou (pelo menos, não vi nada a respeito, nem na internet), mas na última segunda-feira o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, teria recebido na Universidade de Campinas o título de Doutor em Economia, apesar de não ter cumprido as regras impostas aos demais doutorandos do Curso de Pós-Graduação do Instituto de Economia.
Por exemplo: segundo o regulamento, ele só poderia adiar a apresentação da tese uma só vez, e apenas pelo prazo de seis meses. Pois o ilustre ministro postergou a apresentação pelo desprezível prazo de 20 anos. Além disso, de acordo com o regulamento, Mercadante só poderia receber o título de especialização latu sensu, jamais o título de “Doutor”.
Mas todas essas regras foram quebradas, e Mercadante também desrespeitou a tradição de o doutorando apresentar uma tese que discuta a teoria econômica. Ao invés disso, exibiu um calhamaço de 519 páginas sobre o governo Lula, anunciando o nascimento do “Novo Desenvolvimentismo” – um modelo baseado em crescimento e distribuição de renda.
Com frases quase sempre na primeira pessoa do plural, como se tivesse liderado ou integrado a equipe econômica de Lula, lá se foi Mercadante (“Superamos a visão do Estado mínimo”; “Não nos rendemos à tradição populista”; “Retiramos 28 milhões da pobreza”; “Melhoramos muito o atendimento na saúde”).
Como já noticiamos aqui no blog, o novo doutor dedicou boa parte de sua preleção a críticas ao governo de Fernando Henrique Cardoso, com ataques ao neoliberalismo e ao Fundo Monetário Internacional. E acabou sendo ironizado pelo ex-ministro Delfim Netto, professor titular da USP e que participava da análise da defesa da tese.
“Esse negócio de que o Fernando Henrique usou o Consenso de Washington… não usou coisa nenhuma!”, disse Delfim, arrancando gargalhadas. “Ele sabia era que 30% dos problemas são insolúveis, e 70% o tempo resolve”, acrescentou, lembrando que o cenário internacional foi favorável ao governo Lula e destacando que o bolo não cresceu apenas por vontade do presidente petista.
“Com o Lula você exagera um pouco, mas é a sua função”, disse Delfim a Mercadante, fazendo gozação: “O nível do mar subiu e o navio subiu junto. De vez em quando, o governo pensa que foi ele quem elevou o nível do mar…”
“O Lula teve uma sorte danada. Ele sabe, e isso não tira os seus méritos”, concordou o professor João Manuel Cardoso de Mello (Unicamp), que reclamou de “barbeiragens no câmbio” e definiu o Fome Zero como “um desastre”. No final, a comissão decidiu outorgar o título de “doutor” a Mercadante, que deveria ter recebido no último dia 17, mas nem o portal da Unicamp registrou o fato.
O título de doutor é o maior orgulho do acadêmico. No PT, chega a ser um fetiche. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff chegou a se declarar “doutoranda” em Economia na mesma Unicamp, apesar de nem mesmo ter conseguido o título de mestrado.
Como assinalamos recentemente aqui no blog, agora esses “exageros” nem interessam mais. Como presidente do Brasil, Dilma Rousseff vai se encher de títulos de “doutor honoris causa”, que as universidades dão a qualquer um. Desde que o “laureado” (ou “laureada”) esteja no Poder, é claro
O governo de Dilma Rousseff desiste do controle da imprensa
Carlos Newton
Nos estertores do governo Lula, o ainda ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, mesmo sabendo que logo seria defenestrado do cargo, lutava como um gigante por um misterioso anteprojeto de lei que seria o “ponto de partida” de uma nova política para o “controle dos meios de comunicação”.
Franklin Martins se apoiava diretamente no ainda presidente Lula, que volta e meia dava declarações defendendo o tal controle da imprensa e tentando ridicularizar uma revista que fazia oposição a seu governo (a “Veja”). E Franklin se apoiava também no então ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vannucchi, criador do aloprado Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que em 73 páginas abrangia os mais diversos assuntos e até “legalizava” o aborto, que na campanha curiosamente viria a ser o tema mais rejeitado pela candidata petista.
Às vésperas da posse do novo governo, Franklin Martins entregou seu trabalho à presidente eleita Dilma Rousseff, e a expectativa dele era de que a sucessora de Lula encaminhasse o tal texto para consulta pública ou discussão do Congresso e tratasse o assunto como prioritário em seu governo.
Mas o velho ditado nos lembra que “em cada cabeça, uma sentença”. Dilma Rousseff não é Lula, embora até agora seu governo tenha sido um mero prolongamento da gestão dele. E a nova presidente vai encaminhar ao Congresso um anteprojeto mitigado e extirpado dos delírios dos três porquinhos, perdão, três mosqueteiros (Lula-Franklin- Vannucchi, pois os três porquinhos são Palocci-Cardozo-Dutra).
Está confirmado que o tão discutido e polêmico projeto agora vai passar ao largo da chamada imprensa escrita ( jornais e revistas), que durante anos concentrou o fogo da troika do Palácio do Planalto. Agora, a proposta refere-se exclusivamente a rádio e televisão.
E vai mudar alguma coisa no que se refere ao exagerado poderio da Organização Globo, que tentacularmente se espraia por jornais, revistas, rádios, televisões, editora, gravadora, sites? Claro que não, assim como também nada mudará em relação ao crescente poderio da Organização Record, que segue o exemplo da Globo e hoje também inclui jornais, revistas, rádios, televisões, editora, gravadora, sites, como se fossem irmãs xifópagas.
Esse tão polêmico projeto é um tiro n’água. Vai tentar o que alguns parlamentares buscam há anos – a regulamentação dos artigos constitucionais sobre programação de tevês, de forma a abrir maior espaço obrigatório para produções independentes e regionais.
Nada contra. O Brasil é muito grande e diversificado, a ideia aparentemente é ótima. Mas acontece que a realidade é muito mais impenetrável e desafiadora. Veja-se o exemplo da TV Brasil. Antigamente, chamava-se TV Educativa, sua programação era feita com muito sacrifício, não tinha recursos, seus profissionais precisam usar a criatividade, o resultado era até satisfatório.
Pois lembrem-se nos últimos oito anos, a TV Brasil-Educativa foi administrada pelo governo Lula, e pela primeira vez não faltou dinheiro. Só do Orçamento da União, são quase 400 milhões de reais por ano, sem falar na publicidade farta das estatais e congêneres, tipo Petrobras, Correios, Eletrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Vale etc.
O resultado é pífio, todos sabem. O canal está disponível como TV aberta e por assinatura, em todas as operadoras. Ninguém assiste, porque não aguenta assistir. E o pior é que se tornou uma TV chapa-branca, uma espécie de Voz do Brasil 24 horas no ar, a louvar os feitos do governo, o que jamais acontecer na TV Educativa, que era muito mais independente. Ninguém nota, porque ninguém assiste.
Concluindo o raciocínio: nos últimos oito anos, a TV Brasil representou uma espécie de projeto-piloto das normas do projeto que o Governo encaminhará ao Congresso. Por isso, os parlamentares devem ter muito cuidado no exame dessa proposta.
A única coisa aproveitável (se constar do projeto) é a necessidade de haver regionalização da produção, inclusive em horário nobre, assim como a obrigatoriedade de um percentual de produção independente em cada rede ou emissora local.
Mas isso dificilmente será aprovado. A Globo, a Record, o SBT e a Band, que apóiam qualquer governo, não permitirão. Podem apostar. Não haverá mudança alguma, e a TV Brasil não servirá de exemplo para nada.
Guanaes confunde cultura com investimento publicitário
Pedro do Coutto
Em artigo que saiu no Caderno Mercado da Folha de São Paulo de terça-feira, o publicitário Nizan Guanaes, cuja tendência, me parece, é a transferir seu êxito pessoal no campo da publicidade para todos os assuntos, fez a apologia da inovação no processo humano, no que está certo, mas errou intensamente ao dizer que o criativo é naturalmente destrutivo. Absurdo completo. Todo processo humano, começa pela cultura, que é a razão da vida, é cumulativo, não substitutivo.
Equivoca-se: projetou seu universo pessoal de ação como modelo a ser seguido por todos. A contradição maior em que caiu, em síntese, foi destacar o caráter axiomático da publicidade sem levar em conta o teorema da existência. A publicidade é axiomática por isso não depende de comprovação prática. A comunicação em geral, inclusive política, é um teorema. Ou seja exatamente o oposto. Da mesma forma que a mágica é o oposto da lógica.
A imprensa surgiu no mundo com a galáxia de Gutemberg, por volta de 1450, mas não acabou com o livro no mundo. Ao contrário. Unificou o Velho e o Novo Testamento, produzindo a edição completa da Bíblia. Não destruiu, e sim democratizou o livro. A impressão em série não apenas assegurou ritmo veloz ao processo cultural, como consolidou o princípio da libertação torrencial da cultura.
A fotografia não acabou, muito menos destruiu a pintura. A Mona Lisa, no Louvre, Paris, continua sendo o quadro mais admirado e visitado do planeta. Foi pintado por Leonardo Da Vinci há pouco mais de 500 anos. Resiste ao tempo, a exemplo da arte que não sensibiliza e motiva Guanaes. O cinema não destruiu o teatro. O rádio não substituiu os jornais e a imprensa.
A televisão não eliminou o cinema. Pelo contrário: tornou os filmes assistidos não por milhões, mas por bilhões de pessoas que não caberiam nas salas de exibição. Agora, cada tela da TV é uma sala particular na residência de cada um e de todos. Nizan Guanaes afirmou que o facebook é a cara do hoje, pelo número de acessos que possui e habilita.
Ora, facebook substituir a cultura e o pensamento? Isso só num jingle de televisão, ou anúncio bem colocado em páginas de jornais. Ai do ser humano e do futuro, se a existência, cujo processo múltiplo e complexo, fosse depender da república do facebook e da insustentável leveza do ser.
O tema cultura, vale lembrar, meses atrás na página que aos domingos ocupa na Folha de São Paulo, foi magnificamente abordado por Ferreira Gullar. Ele provou, de modo irrefutável, que o nosso presente depende sempre de nossa memória. Caso contrário, como poderíamos relativizar nossas opiniões, impressões, conceitos, suposições? Porque – digo eu – cultura é apenas a passagem do ser humano pelo mundo. Seu eco, seu rastro, sua sombra. Suas impressões digitais, como gosta de acrescentar o acadêmico Marcos Vilaça, presidente da ABL.
A inovação é indispensável, como aliás frisou Guanaes no artigo. Mas ela eternamente partirá de quê? Da dúvida. Pois, sem dúvida, não há pensamento e sem pensamento não pode haver progresso. O movimento cultural se auto-realimenta. E para o ser humano, inovar não pode ser sinônimo de arrasar, destruir. Se assim fosse, tantas são as descobertas através dos séculos, que elas já teriam destruído quase tudo. A começar pela ideia de Deus e do que vem depois de nós.
Se a inovação se impusesse, a vida não seria como ela é. Qualquer inovação seria mais importante daquilo que a precedeu. E não é assim. Guanaes falhou ao negar a força eterna do passado e do pensamento.
A tragédia da irresponsabilidade
Helio Fernandes
Não ia escrever mais sobre o assunto, como disse a Ofelia Alvarenga: “Não consigo mais ver tanta desgraça, mudo de canal”. Não adianta, todos repetem com insistência as mesmas coisas, principalmente no Rio e em São Paulo.
Mas quando vi o relato da artista plástica e advogada Bia Garcez (aqui mesmo no Blog), nem sei como conseguiu mandar, sem comunicação, ilhada, perdeu tudo), decidi que diante desse libelo-lamento-condenação, precisava continuar.
No momento, não há nada mais importante, triste, doloroso, irreparável. E fico estarrecido com o fato de muitos defenderem esses governantes do Rio e de São Paulo.
Algumas coisas que coloquei no título destas notas, precisam ser dissecadas. Rio de Janeiro, Região Serrana. Os fatos se repetem, às vezes mudando de locais, mas sempre destruidores, arrasadores, e não inesperados. Os especialistas, na televisão ou em contatos pessoais com o repórter, repetem mais de 100 vezes: “Com MAPEAMENTO e PREVENÇÃO, gastaríamos menos de 10 por cento do que teremos que gastar na RECONSTRUÇÃO”.
E acrescentam, alguns até revoltados: “O descaso de prefeitos e do próprio governador do Estado do Rio, impressionante”. Ainda de Francis Bogossian, presidente do Clube de Engenharia, (um dos mais sérios, competentes e importantes do Rio), em entrevista na televisão: “Temos feito relatórios que mandamos para as autoridades, ALERTANDO, recebem tudo, engavetam, não fazem nada”.
Não se omite nem tenta preservar autoridades federais. E afirma corajosamente: “Temos feito reuniões coletivas, convidamos o Ministro das Cidades, (há mais de 1 ano) compareceu, debateu, levou os relatórios. Não apareceu mais, nem fez uma obra sequer”. Num país sério, facílimo identificar quem é esse Ministro. E Bogossian diz também : “O Clube de Engenharia propôs até a criação de um ministério para cuidar do assunto”. Nessa enxurrada de 37 ministérios, não há lugar para esse, imprescindível, talvez não interessasse ao PT ou PMDB.
As imagens de Petrópolis, Teresópolis, Friburgo (para quem não conhece o Rio, Nova Friburgo é a mesma coisa que Friburgo, uma cidade só) assombram o cidadão de todo o país. Alguns, não sei como rotulá-los, desculpem, insensivelmente, dizem: “A culpa é da chuva, os governantes não têm nada com isso”.
Com essa mentalidade, não haveria solução para nenhum problema, tudo seria insensível e não solucionável. Esses governantes se livrariam da culpa, bastaria ou basta dizer: “Vai continuar chovendo mesmo, não podermos parar as chuvas”.
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, diz parecendo até revoltado: “Querem que esses problemas crônicos sejam resolvidos em 24 horas?” Não são 24 horas e sim 16 anos, o tempo INACREDITÁVEL que ele está direta ou indiretamente no governo do Estado. E já tomou posse para novo período, que se chegar ao fim completará 20 anos. Muito mais do que as 24 horas citadas por ele.
E uma alta autoridade de São Paulo, declarou, saiu nos jornais e na televisão: “Tive de mandar abrir as comportas de uma represa, sabia que ia agravar a situação. Mas não tinha alternativa”. Aí, além da gravidade da afirmação, a constatação que ela vem desde a construção.
Como em São Paulo só fazem obras viárias e “plantam” concreto, sabiam que estavam comprometendo o futuro. As águas inundam tudo, e “OBRIGADOS” a abrir as comportas, sabem que VÃO AUMENTAR A INUNDAÇÃO. (Sei que vão aparecer aqui mesmo, alguns que defenderão esses irresponsáveis do Rio e de São Paulo).
No Rio, culpam e atingem até os que morreram: “É muita leviandade fazer casas em encostas sem a menor segurança”. Esses “culpados” não têm onde morar. Vivos ou mortos, são as verdadeiras e únicas V-Í-T-I-M-A-S da irresponsabilidade dos governantes. Se houvesse MAPEAMENTO, essas pessoas não iriam morar nesses lugares.
E com MAPEAMENTO PREVENTIVO e FISCALIZAÇÃO RESPONSÁVEL, quem insistisse em habitar essas áreas, seria retirado e transferido para outros lugares. Enquanto estivessem fazendo obras. Acontece que as catástrofes se repetem, não são feitas obras de prevenção ou de reconstrução.
No Rio, apesar do meu horror, não posso deixar de ligar a televisão. Começo a ver um programa, os mortos são mais ou menos 200, no meio são 300, quando acaba, já estão em 335. Isso é número real, não são estatísticas técnicas.
Ninguém será responsabilizado, o governador de São Paulo não se livra de dizer bobagem, o do Rio estava na Europa, como sempre. Não queria voltar, decidiu vir quando soube que a presidente Dilma viria ao Rio. O helicóptero da presidente vai deixá-lo aqui, pede para ficar perto do Aeroporto Internacional, para a longa e satisfatória viagem de volta a Paris.
***
PS – Isso continuará como sempre, os “culpados”, a chuva e os irresponsáveis (?) que vão morar em lugares onde correm todos os perigos, como acontece há pouco tempo em Angra.
PS2 – Bia Garcez, continue escrevendo, impressionando os comentaristas deste blog, e os que reproduzem o que sai aqui. Sei que é pedir muito, Bia, mas são relatos como os teus, que podem levar “autoridades” a alguma providência.
PS3 – Não houve, Bia, em lugar algum, um depoimento como o teu. Libelo mesmo, relato autêntico, sem artifício, de corpo presente, vendo tudo, sofrendo e contando.
“As chuvas e os governantes”,
Jorge Folena
O primeiro dia do ano é para festejar e renovar a esperança por dias melhores, ainda mais quando hoje toma posse a primeira mulher presidente do Brasil, fato que simboliza o avanço numa sociedade retrógrada, na qual, segundo as estimativas, um milhão de mulheres são violentadas diariamente, de várias maneiras (psicológica, física e patrimonialmente), em todo o mundo.
A Presidente Dilma assume com grandes desafios, uma vez que os administradores públicos, de forma consciente ou não, sempre governaram o Brasil como uma sociedade fundamentada na exclusão, na diferença e na indiferença. Nunca valorizaram o trabalho, base de tudo, e enxergaram nos homens e mulheres dos bairros dos subúrbios e das favelas brasileiras apenas uma fonte de mão-de-obra barata, a ser explorada diariamente, bem como um manancial de votos para a confirmação da ordem política.
Um exemplo disso é a tragédia que se repete todos os anos, no mês de janeiro, com as chuvas torrenciais que castigam nossas cidades. Parece, então, que o único culpado é a população pobre, que construiu suas casas onde não deveria. É o que fica aparente nos pronunciamentos das autoridades constituídas, sempre que lemos os jornais, ouvimos as rádios ou assistimos à televisão. Mas o que têm feito os governantes, antes ou depois das chuvas, ao longo de todos estes anos?
Não podemos perdoar estes políticos, pois o problema não é falta de dinheiro, de tecnologia ou de áreas adequadas para se construir residências dignas para todos. Não fazem porque não querem e por ser próprio do regime em que vivemos a manutenção da desigualdade, apesar de se apregoar por todos os cantos que constituímos uma sociedade livre e democrática.
A letra da lei é bonita, mas só vale no papel, como todos sabem. É fácil, na tragédia, transferir a responsabilidade para a população, incriminando-a como sempre fizeram ao longo da História. E apesar de estar consignado na Constituição (artigo 6º), é negado aos pobres e aos miseráveis o direito de habitar com o mínimo de dignidade e em condições salubres.
Por isto, enquanto houver a exploração de homens e mulheres, enquanto os idosos não forem amparados e enquanto as crianças viverem sem esperança de futuro, tudo estará na mais perfeita ordem natural das coisas, com chuva ou qualquer outra forma de tragédia que recaia sobre nós.
Então, Presidente Dilma, sua posse hoje (01/01/2011) representa a esperança de um Brasil melhor para todos. Que seu governo seja coroado de êxito e, assim, nosso país se transforme efetivamente numa grande potência de desenvolvimento humano e social, sem ficar limitado ao mero crescimento econômico.
(Em atenção à comentarista Suzana Oliveira, que lembrou a atualidade do artigo postado dia 1º deste mês por nosso colaborador Jorge Folena, estamos republicando o texto: Tribuna da Imprensa )
O trabalhador como peça descartável
Carlos Chagas�
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O que significa o trabalhador, para o PMDB? Um zero à esquerda. Um lixo. Uma peça descartável. Raras vezes se viu desfaçatez igual, na fisiológica luta do partido por espaços no governo Dilma Rousseff. Por conta de haver perdido os ministérios da Saúde e das Comunicações e os respectivos penduricalhos, mais os Correios, o PMDB ameaça votar contra o projeto que fixa o salário mínimo em 540 reais.
Seus líderes falam da injustiça sofrida pelo trabalhador, pois o reajuste situa-se abaixo da inflação do ano passado. Dizem-se prontos a aprovar 580 reais. Caso, no entanto, o PMDB venha a ser contemplado com mais cargos, sentindo-se compensado, 540 reais bastam.
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Na crônica do partido que um dia serviu de aríete para derrubar a ditadura, jamais seus dirigentes desceram tão baixo. Estivesse entre nós o dr. Ulysses e certamente pregaria a dissolução da legenda que ajudou a criar. Mandaria todos para as profundezas.
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Mais vergonhoso nessa situação é o comportamento das bancadas, as novas e as velhas, que não tem participado da lambança dos comandantes. Porque nenhuma voz ouviu-se até hoje protestando diante da indignidade das negociações. Serão todos os deputados e senadores cultores do fisiologismo, também? Estarão à espera das migalhas desse banquete de horror, pretendendo tirar uma casquinha das nomeações?
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O governo Dilma dispõe de teórica maioria no Congresso. A presidente da República apoiou e terá até participado da fixação do reajuste proposto ainda pelo presidente Lula. Mas o que dizer do Partido dos Trabalhadores? Seus parlamentares encontram-se fechados em torno dos 540 reais. Votarão em uníssono pela merreca, felizes todos com os mais de 60% de aumento que se deram, semanas atrás. O trabalhador que se dane, também para o PT.
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Quanto ao PSDB e o DEM, sustentarão emenda propondo 580 reais. Serão os novos paladinos da justiça social? Nem pensar. O voto desses dois partidos exprimirá apenas a vontade de criar problemas para o governo. Em especial porque confiam na afirmação do ministro Guido Mantega, de que Dilma Rousseff vetará qualquer aumento, se porventura aprovado. Coisa que não acontecerá, é claro, dado o caráter de chantagem embutido na estratégia do PMDB.
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Em suma, o trabalhador continua sendo peça descartável.
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Aluguéis e casa própria sobem o dobro dos salários
Pedro do Coutto
Excelente reportagem de Luciana Carneiro e Ronaldo D’Ercole, O Globo, 30 de Dezembro, portanto no ano que passou, revela que o IGPM da Fundação Getúlio Vargas fechou o exercício com um percentual de 11,3%. Destacaram que, com isso, os valores dos aluguéis que completam um ano, agora, vão subir na mesma proporção. Correta a afirmação, porém incompleta a informação. Incompleta porque tanto as locações de imóveis quanto as prestações da casa própria são regidas pelo mesmo indexador.
O IGPM atinge praticamente 9 milhões de locações, já que, segundo levantamento recentemente divulgado pelo IBGE, o país possui 61 milhões de imóveis e os alugados representam a parcela de 15%. Cerca de 18 milhões de famílias possuem financiamentos imobiliários. Os contratos são regidos também pelas oscilações do indicador da Fundação Getúlio Vargas.
O problema social é que a inflação dos últimos doze meses, também pelo IBGE, registra 5,6 pontos. E os salários, a partir do governo Lula, são realinhados de acordo com as taxas inflacionárias. Exceto o salário mínimo que vem ganhando da inflação oficial. Mas esta é outra questão.
O fato essencial é que, mantidas as duas tendências, a do índice inflacionário e o cálculo do IGPM, a moradia, portanto o direito de morar ficará sendo cada vez mais difícil de exercer. Já vai longe o tempo da equivalência salarial, que era muito mais realista. Agora se a defasagem entre um vetor e outro se mantiver, o problema da moradia no país ter-se-á agravado substancialmente.
Os empregadores particulares detestam discutir o tema salário-inflação-reajuste. O INSS também. Da mesma forma que os católicos não desejam o debate entre cristianismo e catolicismo, os representantes do capital e do capitalismo esquivam-se do enfoque básico da questão social. O valor do trabalho humano.
Pela Constituição Federal, não pode ser diminuido, no papel. Pois na prática não é assim. Basta dizer que uma das formas de reduzir os vencimentos de alguém é reajustá-los abaixo da taxa inflacionária. Este processo cruel, inclusive, foi uma das marcas negativas do governo FHC e explica a razão de sua impopularidade. Houve inegavelmente descompressão no período Lula. Mas neste momento nuvens cinzentas ameaçam diluir o peso do trabalho humano no PIB do Brasil.
Hoje, este percentual que já foi de 60% em 63, com o movimento revolucionário de 64, ciclo da ditadura, dos generais no poder, desceu à metade. Enquanto isso, a participação do capital, que era de 35 passou a 70%. Os dados são do Banco Central. A pirâmide entre nós teve seu vértice trocado.
Nos EUA não. Para um PIB de 15 trilhões de dólares, um terço do produto mundial, a massa salarial pesa 60%. Por isso, um automóvel de porte médio custa apenas 20 salários mínimos. Quantos salários mínimos custa entre nós? Além do preço básico, pagamos o ICMS e o IPI embutidos no custo final. Os compradores pagam. Mas no ano seguinte, os montadores e os revendedores é que descontam os tributos no Imposto de Renda. Vejam só.
O IGPM inclui, entre outros fatores, a oscilação dos valores do dólar. Em 2009, subiu pouco mais que zero e, com isso, aluguéis e casa própria receberam um refresco. Agora, porém, o peso da diferença entre salário e correção das locações e prestações da casa própria retorna como um fantasma do passado a atormentar os locatários e mutuários no presente. Qual a saída?
Não é bonitinho e ordinário, apenas rotineiro.
Helio Fernandes
Todos os discursos presidenciais (até mesmo do carrasco da KGB, presidente da Rússia, agora primeiro-ministro, se preparando para voltar à presidência) são assim. Promessas, saudado, inflado e exaltado, não resiste ao impacto da realidade.
Dona Dilma ganhou editoriais laudatórios que ninguém leu, mesmo na primeira página. Manchetes de todos os jornalões, AGRADECIDOS pelo fato dela ter garantido a Liberdade de Imprensa, que reforçou, chamando de LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Nesta época da internet, localizar tudo nos jornalões impressos, é perda de tempo.
Quem supõe ou garante que “os proprietários” dessa Liberdade de Expressão, estavam preocupados? Foi durante a ditadura que enriqueceram desabridamente, se tornando assustadoramente poderosos, como grupos cresceram subservientemente, acumulando canais de rádio e televisão, formando cadeias (desculpem) invencíveis e insuperáveis.
Do discurso lido ou interrompido por aplausos de coadjuvantes que só foram convidados para isso, não sobrou coisa alguma. Nenhuma frase que fique martelando na lembrança, nem mesmo a esperança de concretização de alguma afirmação, a certeza de que Dona Dilma é a ressurreição do amanhã, a consolidação de tudo o que sonhamos de melhor.
Nenhum discurso é o retrato da realidade, vista, antevista, prevista. Principalmente porque Dona Dilma fez um discurso vazio de ideias, abastecido por promessas que não sabe como cumprir. Colocou no início, no meio e no fim de tudo, o que gostariam que realizasse imediatamente, vá lá, nos primeiros quatro anos de governo.
Se é que esses quatro anos se completarão ou se somarão, pois o ex-presidente, sem a menor credibilidade política, não perdeu tempo em afirmar: “Agora é um direito de todo presidente ficar 8 anos no Poder”. Mas logo foi desmentido por ele mesmo e pelo porta-voz mantido como espião dentro do Planalto: “Se houver dificuldade, Lula pode voltar”. Não disse quando, plantou a heresia da dúvida.
Todas as afirmações da já presidente, ganharam logo a palavra ROTINEIRA, como está no título destas notas. Que não são oposicionistas e sim de alerta, de reserva, de complacência circunstancial, desejando que se transformem em realizações florescentes. Ou eternas, pelo menos enquanto durem, mesmo que sejam apenas em quatro anos.
Prometeu acabar com a pobreza. Qual o presidente que na posse e mesmo em teoria, não garante o fato? O planeta tem 7 bilhões de habitantes, 2 bilhões na mais completa linha da miséria, sem ter o que comer, vestir, morar, se transformar, estudar, se tratar na doença?
São 30 por cento no mundo todo, qual a parte que nos cabe nesse latifúndio, contra o qual bradou poética e altivamente o grande João Cabral de Mello Neto? E quando e de que maneira destruirá essa pobreza, que tem muito mais chances de eliminá-la do que ser eliminada?
Todo discurso de posse é preenchido por afirmações que, não tenho dúvidas, são sinceras. Mas a realidade é muito mais assustadora do que qualquer coisa, como obter recursos para tanto que não foi feito, e que ela nem sabe por onde começar?
Não temos nem o “arremedo” de infraestrutura. Portos, aeroportos, rodovias, ferrovias estão por construir ou por se concretizar. Assume órfã, é a “mãe do PAC”, a mais atrasada de todas as realizações. Os 87 por cento da popularidade de Lula vieram do Bolsa-Família e de outros programas, suposta ou pseudamente sociais. Vieram?
Não sou contra, lógico, diante da realidade nacional. Mas como ser a favor, sabendo que nada disso é criador de riquezas, de futuro, de consolidação dos que recebem miseravelmente, quando deveriam receber l-a-b-o-r-i-o-s-a-m-e-n-t-e?
Não deu uma palavra sobre a DÍVIDA INTERNA, sabendo que precisaríamos de 200 BILHÕES só para pagar os juros, perdão, AMORTIZAR o que não devemos mas temos que depositar. Nos últimos 11 meses desse 2010 que foi embora, dos 200 BILHÕES, só conseguimos 175 BILHÕES, enganando o cidadão-contribuinte-eleitor.
Como dezembro ainda não está contabilizado no que chamam vergonhosamente de “DÉFICIT PRIMÁRIO”, (o único país do mundo que se orgulha disso), é possível que cheguemos aos necessários 200 BILHÕES. Se não chegarmos, não faz mal, os CREDORES são generosos, o que faltar será jogado afanosamente no total.
E sem falar que vem aumento de juros por aí, e a cada percentagem desse aumento, corresponde a mais necessidade para amortizar. Sobre a DÍVIDA EXTERNA, apenas 20 segundos, “felizmente ela foi liquidada pelo presidente Lula”. Entre hostilizar o presidente Lula, e ratificar a “MENAS” verdade sobre a qual tanto mercadejou, ficou com a segunda hipótese. Eram 20 segundos, ninguém notaria.
Esperemos que a partir de hoje, no primeiro dia de absoluta no Planalto, Dona Dilma comece a trabalhar para implantar as duas mais importantes reformas que o país está exigindo há longos e longos anos, e das quais dependem todas as outras. E que se transformarão na mudança do Brasil.
1 – Reforma política-partidária-e-logicamente-eleitoral. Sem isso, continuaremos com a farsa da representatividade que não representa coisa alguma. Mas as cúpulas partidárias não permitirão mudança alguma. Se a representatividade for alterada, como “eleger” outro Temer para vice e satisfazer os lobistas?
Esse ministério mesquinho e com a validade vencida por causa da ausência de povo, é produto da falta de partidos, de militância, de voto conquistado e não comprado.
2 – Reforma tributária, que servirá ao país e não a alguns que se eternizam no poder, mesmo fingindo de alternância.
A presidente promete uma classe média importante, independente e autônoma. Mas que classe média é essa, que consolidam e dizem que representa ganho de 1 mil e 300 mensais? O que vale isso? Na China tão polemizada, criticada e negada, a classe média se abastece com carros de luxo, mora em mansões magníficas, consome o que há de mais caro e desejado?
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PS – Esse discurso é para ler e guardar, não sei por quanto tempo. Será pelo menos por quatro anos. Surpreendentemente ninguém sabe. Lula chorou, não pelo povo, mas pela antecipada saudade de um Poder que gostaria de ter eternizado.
PS2 – Por quanto tempo Dilma resistirá aos 87 por cento de Lula? Ultrapassar? Praticamente impossível. Não tenho boa memória, quando é que gritavam, recitavam e retumbavam? “Bota o retrato do velho outra vez?”.
Site do PT, que não respeita as orientações de Lula
Carlos Newton
O ainda presidente Lula costuma criticar a imprensa por divulgar denúncias sem comprovação, que ainda estão sendo apuradas. Este é um dos seus principais argumentos para defender algum tipo de controle, e o faz com apoio incondicional e entusiasmado dos ainda ministros Franklin Martins (Comunicação Social) e Paulo Vannucchi (Direitos Humanos).
Mas os três esquecem que os jornalistas do próprio PT não fazem outra coisa. Agem exatamente assim. Agora mesmo, está circulando na internet uma notícia escandalosa, divulgada pelo site Macro PT ABC, sob o título “Até cunhado de tucano mete a mão no cofre público… É a família unida”, nos seguintes termos, baseada numa reportagem da Folha de S. Paulo”.
“Paulo Ribeiro, cunhado do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), está sob investigação do Ministério Público do Estado sob acusação de intermediar o pagamento de propinas a políticos e funcionários públicos que contratavam empresas de merenda. Ontem (dia 28) a Polícia Civil fez uma operação de busca e apreensão na casa de Ribeiro, irmão de Lu Alckmin, a esposa de Geraldo Alckmin. Ele é alvo de investigação que apura crimes de lavagem de dinheiro, superfaturamento e direcionamento de licitação.
A investigação é conduzida pelo promotor Arthur Lemos Jr., do Gedec (Grupo de Atuação Especial de Repressão à Formação de Cartel e à Lavagem de Dinheiro). A acusação se baseia em escutas telefônicas e documentos apreendidos, aos quais a Folha não teve acesso.
A operação foi feita à procura de documentos que mostrariam detalhes sobre o caminho das comissões pagas por empresas para obter contratos públicos.Há dois anos a Promotoria apura a existência de uma suposta máfia da merenda, que agiria como um cartel para subir os preços.
No esquema, o preço da merenda é sempre superfaturado, funcionários públicos e políticos recebem propina pelo valor mais alto, e o partido do prefeito recebe contribuição não declarada.
A apuração começou em São Paulo, mas hoje se estende a Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Maranhão. Há prefeituras ligadas a PSDB, PDT e PPS.
O nome de Ribeiro aparece na lista como suspeito de ter atuado como lobista em dois contratos com indícios de superfaturamento, com as prefeituras de Pindamonhangaba e de Taubaté.
Em Pindamonhangaba, cidade natal de Alckmin e de Lu, a prefeitura contratou a empresa Verdurama em 2005 para fornecer merendas para cerca de 30 mil alunos. O pagamento anual é de cerca de R$ 5 milhões.
Em Taubaté, há a suspeita de que Ribeiro teria ajudado a Sistal a elevar o valor do contrato de R$ 10,8 milhões para R$ 25 milhões num período de três anos, sem um grande aumento de alunos”.
Na matéria da Folha, o cunhado de Alckmin é tratado apenas como “suspeito”, não há menção a partidos, mas o blog do PT logo identifica como “prefeituras ligadas a PSDB, PDT e PPS”. Além disso, já providenciou a condenação, no título da matéria. É uma demonstração de que Lula, Franklin e Vannucchi melhor fariam se esquecessem essa obsessão por controlar a imprensa. Se não conseguem controlar nem mesmo os sites do PT, por que teriam a pretensão de policiar todo o resto?
Quanto mais livre a imprensa, melhor, não interessa se o alvo da denúncia é do PT, do PSDB ou de qualquer outro partido. Se a denúncia não for verdadeira, a Justiça está aí para ser acionada, de forma a indenizar a vítima de difamação, injúria ou calúnia, na forma da lei. É assim que a coisa funciona.
E mesmo com a divulgação permanente dos atos de corrupção, é muito difícil alguém pagar por isso no Brasil. É mais fácil um jornalista ser condenado do que um corrupto (ou corruptor, apesar de corruptores serem uma categoria à parte, praticamente fora de qualquer punibilidade). Esta é a nossa realidade.
Por fim, Lula só existe como líder político e fenômeno eleitoral porque a imprensa sempre divulgou suas iniciativas, desde os tempos difíceis do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Ele não deveria ser tão ingrato. Pega mal.
Jornalismo: manual de sobrevivência
Por Geraldinho Vieira
Em época de debate selvagem sobre a credibilidade e futuro do jornalismo, em torno do qual pelejam visões sobre regulamentações e auto-regulamentações, acaba de ser publicado um mais que valioso estudo, verdadeiro manual de sobrevivência para empresas, jornalistas e para todo cidadão que – por não abrir mão de informação de qualidade – quer compreender o complexo universo da produção da notícia.
O estudo, brasileiro, está composto por quatro livros que contribuem a um debate ainda incipiente no pais. Sim, “o estudo mesmo indica que no setor da produção jornalística ainda não foi efetivamente incorporada uma cultura de avaliação de qualidade como já existe em outras áreas, tanto do universo industrial como de comércio e serviços”.
Pesquisas e textos finais foram desenvolvidos pela Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) em parceria com a Unesco sob o título geral “Indicadores da Qualidade da Informação Jornalística”.
Foram inspirados por outra publicação, de 2008, da mesma Unesco – “Indicadores de Desenvolvimento da Mídia”. Tais indicadores já propunham cinco categorias para a análise do desenvolvimento da mídia em todo o mundo: (1) Sistema regulatório favorável à liberdade de expressão, ao pluralismo e à diversidade da mídia; (2) Pluralidade e diversidade da mídia, com igualdade de condições no plano econômico e transparência da propriedade; (3) Mídia como uma plataforma para o discurso democrático; (4) Capacitação profissional e apoio às instituições que embasam a liberdade de expressão, o pluralismo e a diversidade; e, (5) A capacidade infraestrutural que sustenta uma mídia independente e pluralista.
As quatro novas publicações:
- “Indicadores da Qualidade no Jornalismo: políticas, padrões e preocupações de jornais e revistas brasileiros”, de Rogério Christofoletti;
- “Jornalistas e suas visões sobre qualidade: teoria e pesquisa no contexto dos Indicadores de Desenvolvimento da Mídia da Unesco”, de Danilo Rothberg;
- “Sistema de gestão da qualidade aplicado ao jornalismo: uma abordagem inicial”, de Josenildo Luiz Guerra; e,
- “Qualidade jornalística: ensaio para uma matriz de indicadores”, de Luiz A. Egypto de Cerqueira.
São obras que complementam-se na composição de um retrato do “estado atual da indústria jornalística nacional no que tange seus esforços para a busca da excelência técnica e a qualidade de seus serviços e produtos”.
A pesquisa teve três momentos: (a) levantamento das visões dos jornalistas profissionais sobre qualidade; (b) sistematização das posições dos gestores das empresas do setor sobre qualidade; (c) reflexão, discussão e concepção de uma matriz de indicadores para aferir a qualidade jornalística.
Unesco e Renoi pretendem que esta matriz funcione “como marco organizativo inicial, passível de aportes adicionais que advirão dos testes práticos e das contribuições do setor jornalístico, da academia e, sobretudo, do mercado”.
Os resultados apontam para um perfil do setor no país, e a matriz de indicadores de qualidade pode ser adaptada para outros segmentos da indústria (o estudo concentrou-se em revistas e jornais) .
POLÍTICAS E PADRÕES
No primeiro volume, abordam-se duas vertentes em busca de padrões mínimos de qualidade na oferta dos serviços.
Numa delas (a que diz respeito aos esforços internos ao ambiente jornalístico e ao fazer jornalístico propriamente dito), são observadas iniciativas como criação de cargos de ombudsman; manuais de redação; conselho de leitores; prêmios para incentivar a competitividade interna; profissionalização da gestão; políticas editorias; reformas internas nos produtos; adoção de processos de normatização e gerenciamento; busca de excelência técnica e inovação tecnológica; fortalecimento e organização empresarial, por meio de entidades associativas; ações para a expansão de negócios pela via da diversificação mercadológica.
A outra vertente – aquela que diz respeito aos movimentos pela qualidade da imprensa que vêm de governos, organizações não-governamentais, igrejas, associações classistas, academia e outras instituições e atores influentes – tem como exemplos os observatórios de mídia; iniciativas de análise e crítica de mídia; códigos de ética; projetos de qualidade no ensino de graduação ou formação profissional; esforços para a regulamentação estatal do mercado; premiações ou distinções exteriores às empresas do ramo; eventos de discussão sobre as rotinas produtivas e por aí afora.
A VISÃO DAS REDAÇÕES
O segundo volume verifica a visão que os jornalistas nutrem sobre a qualidade de seu trabalho, já que suas próprias expectativas serão delineadas pelas obrigações que eles acreditam possuir.
GESTÃO DA QUALIDADE
O estudo tem como hipótese que a definição de Indicadores de Qualidade Jornalística,
aplicados dentro de um Sistema de Gestão da Qualidade, “pode ajudar tanto os grupos que monitoram organizações jornalísticas quanto a estas próprias a identificar com maior precisão quais são os atributos de qualidade desejáveis e quais são os vícios a serem evitados nos produtos e serviços jornalísticos”.
O desafio da qualidade no jornalismo articula duas grandes dimensões do problema: (1) a existência de ambientes sociais, culturais, políticos, econômicos, que sejam voltados para a qualidade; e (2) a existência de organizações que se comprometam e desenvolvam know howsuficiente para alcançar padrões de desempenho definidos e aferidos por meios públicos, os quais podem ser afirmados então como “padrões de qualidade”.
No terceiro volume, são analisadas algumas experiências de avaliação de qualidade para o jornalismo, classificando-as em três categorias: (1) “Parâmetros de avaliação de conteúdo”; (2)“Parâmetros de avaliação de procedimentos”; e, (3) “Parâmetros de avaliação de sistemas de gestão”.
Aqui, define-se qualidade no jornalismo como “o grau de conformidade entre as notícias publicadas e as expectativas da audiência, consideradas as expectativas da audiência em duas dimensões: (a) dimensão privada, relativas a seus gostos, preferências e interesses pessoais; e, (b) dimensão pública, relativas ao interesse público como Valor-Notícia de Referência Universal.
MATRIZ DE INDICADORES
No quarto volume, defende o autor que “… a exposição à crítica, para além de uma manifestação de transparência editorial, tende a igualmente funcionar como instrumento de apoio a programas de qualidade em organizações preocupadas com o fortalecimento de sua reputação corporativa, com aumento de sua participação no mercado e, em última análise, com a rentabilidade garantidora de sua independência editorial”.
A obra apresenta então proposta de matriz com indicadores de qualidade.
Na opinião do Coordenador da área de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil, Guilherme Canela, em press-release de lançamento das obras, “…os Indicadores de Desenvolvimento da Mídia deixam absolutamente claro que quando se trata de conteúdo jornalístico, o melhor caminho para a prestação de contas é a auto-regulação. Isso, entretanto, requer um forte senso de qualidade e ferramentas objetivas para o acompanhamento das audiências, e isso é o que a pesquisa oferece para o debate”.
* As publicações estão disponíveis em versão PDF na sessão “Comunicação e Informação” do site da Unesco: www.unesco.org.br
Em nota, Paulinho da Força ‘enfraquece’ governismo
Ao defender a fixação do reajuste do salário mínimo para R$ 540, Lula como que enfraqueceu os pendores governistas de Paulinho da Força.
Presidente da Força Sindical, o deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) divulgou uma nota. Escreveu: "No final de seu mandato, o presidente Lula...”
“...Parece querer que esqueçamos que seus oito anos de governo foram direcionados para o enfrentamento das desigualdades sociais".
Já sob Dilma Rousseff, o governo enviará à Câmara uma MP (medida provisória) fixando o valor da mínima remuneração a vigorar em 2011.
Paulinho avisa que, na pele de deputado, vai enganchar na MP um par de emendas. Numa, proporá que o mínimo suba para R$ 580.
Noutra, sugerirá a elevação de 10% para os aposentados que recebem do INSS benefícios acima do piso.
Curiosamente, Paulinho é filiado ao mesmo PDT de Carlos Lupi, o brizolista que Lula nomeara para a pasta do Trabalho e que Dilma acaba de confirmar no posto.
Em entrevista veiculada no sábado (24), na Folha, Lupi destoara do governo ao advogar um mínimo de R$ 560.
Ao insinuar que levará às últimas consequências os R$ 580 preconizados pelas centrais sindicais, Paulinho destoa muito mais.
Como que decidido a constranger o governo que supostamente apoia, o deputado realça em sua nota os dividendos políticos da política de valorização do mínimo.
Anota que, tal política, acertada pelo governo com os mandarins do sindicalismo em 2006, "teve forte impacto nos índices recordes de aprovação do presidente Lula".
O diabo é que os R$ 540 refugados por Paulinho respeitam, com rigor matemático, o acordo deitado sobre o papel quatro anos atrás.
Acertara-se que reajuste anual do salário mínimo incorporaria a inflação do ano anterior mais a variação do PIB dos dois anos anteriores.
Em 2007 e 2008, o PIB cresceu 6,1% e 5,2% respectivamente. Algo que vitaminou os reajustes de 2009 e 2010.
No ano passado, sob os efeitos da crise financeira international, o PIB registrou queda de 0,6%. Daí o aumento mixuruca de 2010.
No dizer de Lula, as centrais não podem querer que o acordo vigore apenas nas fases de vacas gordas. Paulinho dá de ombros.
“Os insensíveis tecnocratas, ainda enraizados na área econômica, insistem em dar um pífio aumento para o salário mínimo”, escreve na nota.
A rebeldia do deputado expõe a fragilidade da (i)lógica que norteia o mercado persa da composição do primeiro escalão do governo.
Em tese, os partidos aquinhoados com ministérios deveriam retribuir com apoio político e votos no Congresso. Na prática, dá-se coisa diversa.
Lula e Dilma não podem nem alegar surpresa. Paulinho sempre foi um “aliado” de conveniência. É movido a vantagen$, não a ideologias.
Enquanto pareceu vantajoso, fez o contraponto à CUT, braço sindical do petismo. Foi governo sob Collor e sob FHC.
Celebrou na era tucana convênios que desandaram em malfeiros que, hoje, frequentam os escaninhos do Judiciário ações movidas pelo Ministério Público.
Em 2002, Paulinho foi candidato a vice na chapa de Ciro, então no PPS. Tratado a pão e água no primeiro reinado de Lula, apoiou o tucano Alckmin em 2006.
Reeleito Lula, achegou-se de novo ao governo e aos cofres. Estreitou sua inimizade com a CUT.
Brindado com o ministério do Trabalho, lambuzou-se nos repasses do imposto sindical, empurrou o PDT para dentro da coligação de Dilma e deu sobrevida a Lupi.
Agora, Paulinho posa para sua clientela como um governista de resultados, do tipo que belisca o bônu$ sem se comprometer com o ônus. Uma beleza.
( Com informações do Blog do josias- Folha )
Um estatuto para 400 mil terceirizados federais
Pedro do Coutto
Sem dúvida um dos problemas mais importantes que esperam o início do governo Dilma Roussef é a questão trabalhista que envolve cerca de 400 mil servidores federais terceirizados só na área federal. Se a estes somarem-se aqueles nas esferas estaduais e municipais vamos seguramente encontrar no país mais de um milhão de pessoas.
Só a Petrobrás, de acordo com o balanço feito pelo Tribunal de Contas da União, possui 172 mil. Três vezes mais que o seu quadro efetivo, praticamente. O Banco do Brasil tem em torno de 80 mil, a Caixa Econômica mais ou menos 60 mil. Das empresas estatais, a que reúne menos é Furnas: 1 mil e oitocentos. Aliás é dos menores o quadro de pessoal de Furnas: apenas 6 mil e 500 servidores em números redondos.
No governo Sérgio Cabral, Rio de Janeiro, são mais de 40 mil, cujos vencimentos – segundo estudo do analista Filipe Campello – estão embutidos na rubrica “despesas gerais”. O que torna difícil estimar exatamente os gastos com a folha de pessoal. O fato é que terceirizados estão há vários anos trabalhando, são importantes para o desempenho das administrações, e necessitam um estatuto nos termos aliás previstos no parágrafo primeiro do artigo 173 da Constituição Federal.
O estatuto criando quadros extintos, congelando-os até aprovação da lei complementar que estabelece este dispositivo constitucional, é tanto fundamental quanto estratégico para evitar a interrupção dos serviços especiais e de concessão pública, de quer inclusive trata a lei 8.987 de fevereiro de 95.
Pois retirar os terceirizados do palco de trabalho, pelo seu número, como se constata, será precipitar uma crise sem precedentes, a começar pelo setor de energia elétrica. Mas eu disse que o estatuto é tanto essencial quanto estratégico. Explico por quê.
Em primeiro lugar, em face da recente decisão do Tribunal Superior do Trabalho – reportagem de Adriana Aguiar, Valor de 23 de dezembro, admitindo a terceirização nas empresas concessionárias de serviço público, caso específico da Light, mas decisão extensiva a todas as demais.
O julgamento do TST, inclusive, baseou-se em despacho do ministro Gilmar Mendes, no Supremo, apreciando caso de terceirização e envolvendo a Vivo. Se a normas constitucional não impede, sustentou ele, não há como a Justiça do Trabalho resolver em contrário.
Traduzindo melhor, mais especificamente, não só não impede, como especialmente determina. Basta ler o parágrafo primeiro do artigo 173, a que me referi há pouco. Este dispositivo afirma textualmente que lei complementar igualará, para efeitos tributários, trabalhistas e de comercialização de produtos e serviços, as empresas públicas e sociedade de economia mista (caso da Petrobrás e do Banco do Brasil) às empresas privadas. Com base no artigo 173, inclusive, a Petrobrás implantou seu estatuto próprio abrangendo os 172 mil terceirizados que possui. Situação e texto mais claros impossível.
Fala-se em consórcio público, tudo bem. Mas como realizar concursos para admitir 400 mil pessoas? Isso de um lado. De outro, fazer concurso para trabalhadores de linhas elétricas que atuam em todas as regiões do país? Não me refiro apenas a Furnas. Mas também à Chesf, a Eletronorte, Eletrosul, Itaipu.
E também aos consórcios público privados, nos quais estatais participam de forma minoritária. Caso da hidrelétrica Foz de Chapecó, no qual a CPFL, de Ermírio de Moraes, por exemplo, detém 51% do capital, enquanto Furnas 40%. Inclusive é a última obra inaugurada por Lula no seu governo. Concurso em empreendimentos particulares? Não há exemplo no país.
Não se pode ter só certezas: a dúvida é essencial
Pedro do Coutto
Aqueles que acharam que o governo Dilma Rousseff representaria apenas uma continuidade fria do governo Lula, a partir de hoje têm razão para rever o conceito simplista demais. Basta somente para isso comparar a formação das duas equipes ministeriais e observar paralelamente, com atenção, os resultados de pesquisa do Datafolha, publicada na edição de 22 da Folha de São Paulo. Foi inclusive bem comentada pelo repórter Sílvio Navarro, que destacou o que era para ser ressaltado: 83% acham que o governo que se instala a primeiro de janeiro será igual ou melhor do que aquele que termina a 31 de Dezembro.
Dos 37 cargos ministeriais, Dilma já escalou 21 novos nomes. Vinte e um, vale acentuar, não. Vinte. Porque o deputado Pedro Novais, convidado para o Turismo, depois da matéria de O Estado de São Paulo, também de 22, certamente será desconvidado e portanto substituído.
Pedro Novais, de acordo com a reportagem de Leandro Colón, manchete da
primeira página, pagou uma conta no Motel Caribe, de São Luís, com a verba indenizatória da Câmara Federal. O valor foi de 2 mil e 100 reais. Destinou-se a uma festa que reuniu dez casais no motel. Assim é demais. Mas esta é outra questão.
O fato é que, como já escrevi, se não existem no mundo duas pessoas iguais, não pode haver duas administrações iguais. Cada um tem seu estilo, suas afinidades e antipatias, seus ângulos de avaliar o comportamento humano. A opinião pública, como revelou o Datafolha, percebeu este lado da vida, que vale e se ajusta plenamente ao universo político. Alguns analistas brilhantes, como Élio Gáspari entre eles, acreditam na plena continuidade. Eu não. Nesta altura do campeonato, dou valor à dúvida muito maior do que atribuía há quarenta anos.
É como disse no título deste artigo: não se pode ter só certezas, a dúvida é essencial. Sempre essencial, aliás. Vejam os leitores o exemplo na matemática. Se Einstein não tivesse dúvida quanto a total procedência da lei de Isaac Newton, quase duzentos anos antes dele, não teria chegado à relatividade em 1905, aos 25 anos. Einstein consolidou sua visão entre 1931 e 1933. Com isso, não foi só a física que mudou. A alteração gerou mudanças no próprio pensamento humano na ciência, nas artes, na política, no modo de se analisar os fatos e as pessoas. Tudo é relativo, a frase ficou para sempre.
A relatividade é um marco em todo o processo de cultura, indagação, divagação, descoberta. Incessante o processo. Como o passo gigantesco de Sigmund Freud com a Psicanálise. Obras, como algumas de Shakespeare, passaram a ser encenadas de outra maneira. Otelo, por exemplo, Hamlet, outro exemplo. Enfim criou-se um ciclo totalmente diferente de ver e rever a atuação do ser humano.
Na política, então, os emblemas são infindáveis, renovando-se inclusive a cada passo. Muitos antecessores elegeram seus sucessores achando que continuariam no poder. Ledo engano. Poderia citar tantos casos dos quais tenho conhecimento. Fico com dois deles. Nas eleições de 55, JK conduziu o vice João Goulart à vitória nas urnas. Jango, um ano antes, havia perdido a disputa para o Senado pelo Rio Grande do Sul para Armando Câmara e Daniel Krieger. No auge da crise de 64, não atendeu no Palácio Laranjeiras, onde estava acuado, um telefonema urgente de JK.
Em 79, Ernesto Geisel fez de João Figueiredo seu sucessor. Condição, manter Golbery do Couto e Silva na Casa Civil. Golbery ficou só 15 meses no posto. Foi demitido na crise da bomba no RioCentro. Onde ficou a continuidade? No espaço, como se diz por aí.
E um Feliz natal para todos.
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