Política

Redação do Gterra, 06/09/2010 às 10h48min

Candidata ao Senado Marineide diz que a população precisa de meios para fiscalizar

Nós acreditamos muito na participação popular”, afirmou a candidata, que, oriunda do PT, disse que seu expartido traiu os trabalhadores e afirma que o socialismo é a solução para o Brasil.

Foto: Jornal O Dia Candidata ao Senado Marineide diz que a população precisa de meios para fiscalizar
Candidata ao Senado Marineide diz que a população precisa de meios para fiscalizar
Edição: Gterra

Marineide Albuquerque, candidata ao Senado pelo PSOL, na sua entrevista a O DIA, disse que as eleições são importantes para a democracia, mas não basta apenas isso. “É preciso que a população tenha meios de fiscalizar, que as informações viessem em mensagens mais acessíveis. Há um site de transparência, mas não basta só isso. Nós acreditamos muito na participação popular”, afirmou a candidata, que, oriunda do PT, disse que seu expartido traiu os trabalhadores e afirma que o socialismo é a solução para o Brasil.

Por Elizângela Carvalho, Nildene Pinheiro e Mariana Karene
Candidata, ainda é pequena a presença feminina em eleições. A senhora critica a postura de mulheres que herdam mandatos de pais, maridos. O que a senhora acha da participação feminina nas eleições?

Parece contraditório. Realmente, é muito importante que as mulheres participem. Quando a gente faz a crítica, não é que a gente acha que por ser mulher de governador, senador, ou filha deva cair de fora.

O problema é que a impressão é de que elas surgem para suprir...eu estou saindo, vou concorrer a senador e como pode ser que eu não ganhe, você fica aí, que já garante na família alguém em cargo público, mamando nas tetas. Aí, ele colocar a mulher, que não é uma mulher de lutas sindicais, de lutas de mulher, que tem histórico, uma mulher que está lá apenas porque o marido diz “vai, faz isso.

Caso eu não consiga, você vai. Saio de deputado federal, vou para senador, mas se algo der errado, nossa cadeira está lá”. É como se fosse hereditário, passando de marido para mulher, de pai para filho.

Por outro lado a senhora não acha que de alguma maneira o fato da mulher candidata levar bandeira feminina ou feminista não é um discurso um pouco ultrapassado?
Não, porque apesar de nós mulheres termos algumas conquistas, temos muito ainda a conquistar. É como a classe trabalhadora. O mundo ainda é muito masculino.

O Congresso (Nacional) é muito masculino. Precisamos ter um ponto de vista, passar nossa experiência.. Nós, mulheres, ainda somos muito sobrecarregadas. Hoje, a mulher tem dupla ou tripla jornada. Ela trabalha fora, o marido também, mas é sempre ela. Mesmo que ela não faça o supermercado, mas ela faz a lista. Mesmo que não faça a comida, mas ela dá as ordens à empregada. A mulher é muito sobrecarregada e ainda existe machismo.

Por exemplo, tive problema em uma gráfica e não tiveram respeito. Consideram a mulher uma criança, uma imbecil. Fui a uma entrevista com vários senadores, eles chegam, dão tapinhas nas costas, e deixam as mulheres de fora. Eu sempre questiono. É incrível! São pequenas coisas, às vezes a gente não percebe. Esse discurso não está ultrapassado nem do ponto de vista feminista, nem feminino. A gente avançou, mas com muito esforço e luta. Para uma mulher se sobressair, ela tem de ser muito boa.

O homem razoavelmente medíocre se sobressai em quase todas as funções. Ele faz parte do grupo do futebol, da cerveja. No meu trabalho, por exemplo, na Caixa (Econômica Federal) existe campanha. Mas quando a mulher se sobressai, ela não tem um suporte. O homem, não! Tem o suporte da mulher. Ele pode sair porque não se preocupa com o supermercado, com as escolas das crianças. Existem países mais desenvolvidos que há campanhas para mudar a mentalidade do homem.

Há pesquisas que a percepção sobre a corrupção, do brasileiro médio, é de que as mulheres são menos corruptas que os homens. Se a senhora chegasse ao Senado, proporia que ações para moralizar a política no Brasil, que hoje tem essa pecha de corrupção?
Nós acreditamos muito na participação popular. As eleições são importantes, mas não basta isso. Os parlamentares não são salvadores da pátria. É preciso que a população tenha meios de fiscalizar, que as
informações viessem em mensagens mais acessíveis. Hoje colocam balancetes, mas é muito complicado, é preciso uma linguagem mais simples.

Há um site de transparência, mas não basta só isso. Há TV
Senado, TV Assembléia, mas em canais fechados. As pessoas que não tem recursos, não tem como acompanhar. Uma de nossas propostas é que exista... não existe o momento eleitoral gratuito, nas eleições, porque não depois, para que se preste contas nas TVs abertas para saber o que estão votando, falando, defendendo. Eles são financiados por grandes empresas, governam para essas grandes empresas, latifundiários, banqueiros que mantém essas campanhas milionárias. Os retornos são para eles, não para o povo. Para o povo são as migalhas, o Bolsa Família. Claro... uma pessoa que não tem nada, vai ficar feliz e agradecido... mas a parte maior do bolo é para quem financiou a campanha. É preciso que as pessoas saibam quem está financiando e por que. É preciso haver transparência. É preciso que prestem contas de que leis estão criando, se estão beneficiando realmente a população que não tem acesso à justiça, à saúde, educação de qualidade. Defendemos a organização popular em conselhos, nos bairros, para que fiscalize, exija e cobre.

A senhora falou do Bolsa Família. A senhora credita que essa seja uma forma de corromper a sociedade, já que há tantas pessoas que têm necessidades primárias a serem cumpridas?
Eu não usaria a palavra corromper. Mas essas pessoas têm direito. Esse dinheiro é muito pouco, é uma forma de amenizar a pressão. É uma válvula de escape para que a coisa não estoure, não haja uma revolta. Essas pessoas se sentem tão agradecidas, que o retorno é dar o volto. É uma espécie de toma lá dá cá pequeno.

Há vários níveis de toma lá dá cá. Existe o Bolsa Família, que agrada às pessoas e eu não critico... poxa, eu não tenho nada e vem uma pessoa todo mês me dar 100 reais... mas as pessoas merecem mais. Dinheiro nesse país tem mais. É preciso priorizar. Quem você vai priorizar? Para a classe menos favorecida, dão migalhas. Para a classe média, dão emprego. Você arranja o emprego e a pessoa fica eternamente grata e presa a você. Os pequenos cargos de comissão, vários... cada governo que entra tira os que estavam lá e colocam os seus. Aquelas pessoas são cabos eleitorais. Não só votam como pedem voto. E para os grandes fazem com quem continuem lucrando.

Para a classe alta são os grandes cargos e para os banqueiros são leis que favorecem e que mantenham essa conjunção de lucro. Não
adianta um país se desenvolver, o Piauí se desenvolver, não havendo distribuição mais igual de renda e terra.

O senado tem papel fiscalizador, legislador, mas também há quantidade de recursos para emendas parlamentares. Que destino a senhora daria a esses recursos?
Se colocarmos, o principal seria a vida e vida significa saúde. Deixaríamos para saúde, educação, através de educação se tem até mais saúde. Você pode até ser de classe média, mas se você não tem educação, você se alimenta de forma pouco saudável. Com conhecimento, você come frutas, legumes. Também teria como prioridade a geração de emprego para que as pessoas tenham independência, autonomia. Temos de lutar para que os recursos do PIB aumentem para educação. Defendemos que cheguem pelo menos a 10% para educação, saúde, infra-estrutura.. Estradas não apenas para beneficiar o agronegócio, mas o pequeno produtor.

O agronegócio pensa só no lucro, não pensa na vida, vai até degradando o meio ambiente. Essas emendas os políticos usam também como fator para se perpetuar. Dão dinheiro para aquela cidade, mas têm de ter certeza do retorno. Os vereadores têm de dar tantos votos, o prefeito tem de dar tantos votos. Hoje você não tem de pensar só naquilo que a gente chama de currais, tem de pensar no Piauí como um todo, aumentar verba para saúde, educação. Na Suécia, é proibido educação e saúde privada, é tão importante que não se pode lucrar com isso.

O Estado tem de ter a obrigação – e a nossa Constituição também determina isso, é obrigado a dar saúde e educação. Lá os impostos são muito altos, mas há grande retorno. No Brasil, paga-se imposto de primeiro mundo, com retorno de terceiro mundo. Esse imposto não retorna.

Como propor uma atuação socialista no Senado em um contexto tão capitalista?
Existe a transição. Propomos que a principio algumas leis que já existem sejam cumpridas e que outras sejam elaboradas. Por exemplo, na questão da democracia, hoje todo mundo diz e fala. Realmente, avançamos muito, mas precisamos avançar mais. Por exemplo, eu estou concorrendo às eleições, mas meu tempo na TV é bem menor que o dos outros partidos. Se estou concorrendo para um pleito futuro porque meu tempo tem de ser baseada em um pleito passado? Porque eles mesmos fazem as leis para se beneficiar, se perpetuar. Nós defendemos tempo igual para todos os partidos. Assim você tem a oportunidade de divulgar suas idéias, suas propostas. Outra coisa, o financiamento de campanha.

Defendemos financiamento publico igual para todos ou ao menos um limite. Hoje já há, não é permitido outdoor, mas é preciso avançar mais, que se limite os gastos, que não existam as campanhas milionárias.
Assim, haveria igualdade. Há candidatos financiados por empresários que têm cartazes, minidoors, van.

Sabemos que divulgando nossas idéias, teríamos muito mais votos, as pessoas participariam. Algumas pessoas não entendem o socialismo, dizem que é ultrapassado, mas não é. A miséria é muito grande.

Queremos diminuir a desigualdade. Na Suécia, não há pessoas tão ricas nem tão miseráveis como no Brasil. Isso é socialismo. É ter democracia, tempo igual, recurso igual, saúde e educação de qualidade, poder vigiar isso, ter mecanismos de vigiar, de cobrar, de exigir. Dentro do capitalismo não vai haver imediatamente o socialismo. Você vai criando, avançando, evoluindo até chegar ao socialismo.

Em entrevista ao O DIA o candidato ao senadorWellington Dias disse que o PT ainda é o único partido entre os que defendem o socialismo a defender a liberdade de expressão.

É verdade que uma vez no poder o PSOL iria abolir esse direito?
Isso é absurdo. Se eles defendessem a liberdade de expressão teriam votado para que o tempo de campanha fosse igual a todos os partidos, teriam votados para que houvesse limite de recursos pequeno. Uma coisa é falar. Uma forma de comprovar é ver o que ele votou. Defendemos isso e os nossos parlamentares votaram a favor. O PT mudou. No meu ponto de vista, foi uma traição. O PT antes de entrar (no poder) não defendia a reforma da previdência que tirava direito dos trabalhadores e aposentados.

Lá, foi uma das primeiras coisas que colocaram em prática, ficou a favor da reforma e mandou para votação. Parlamentares que eram contra, o Babá, do Pará, Heloisa Helena, de Alagoas, Luciana Genro, do Rio Grande do Sul, disseram não, continuaram contra. O PT disse que se não votassem a favor da reforma seriam expulsos do PT. E foi o que aconteceu.

O PT mudou. Não é mais socialista, não defende as categorias populares, se diz trabalhador, mas é só no nome. Muitos petistas do país inteiro saíram do PT para se solidarizar com eles porque continuaram defendendo os trabalhadores, o socialismo. Eu mesma fazia parte do PT, da fundação do PT. Para mim, foi a gota d’água. Na hora que eles fizeram isso, acompanhei a Heloísa Helena. Nós não mudamos. O PT faz média. Há petistas que ainda acreditam que podem mudar o partido. Não os dirigentes.

Os dirigentes podem tudo, sabem tudo. Mas há pessoas na base que acreditam que o partido pode voltar a ser de luta, de defender os trabalhadores. Mas elas não têm influencia nenhuma. Quando a gente saiu do PT foi porque vimos que o PT não mudaria. Somos contra acordos de bastidores. Se a gente quer governar... com a população participando, inclusive na Assembléia, ocupando as cadeiras. Acreditamos na mobilização popular. Queremos contribuir com isso. Estou sozinha, mas vou continuar defendendo. Não vou fazer acordos de bastidores para crescer, como fez o PT.

Nem para aprovar uma coisa que... eu vou divulgar para imprensa se tiver abertura, se não vou para a internet, vou mobilizar pessoas, dizer que estou defendendo essa proposta que vai beneficiar os trabalhadores, mas que infelizmente não está passando porque eles não querem votar. Outra coisa, votação tem de ser aberta. A população tem de vigiar, saber. Por exemplo, proposta para aumentar passagem de ônibus de uma prefeitura, daquela empresa que financiou a campanha daquele candidato a vereador.

Você acha que esse senador vai votar contra os aumentos?
Não vai. É uma forma de a população acompanhar essa votação ser às claras. A gente quer governar com transparência e junto com a população. Não queremos conchavos, nem políticas de bastidores ou acordos na calada da noite como existe hoje.

Qual o principal adversário do PSOL e da sua candidatura nessa eleição, a estrutura de campanha que tem seus adversários, poder econômico ou político?
Não chamo de adversários, mas são coisas que empacam nossa campanha. Temos poucos recursos, pouco material, pouco tempo de TV. A cada dia cresce nossa campanha. A cada vez que você fala na televisão as pessoas te ligam, te convidam, querem o seu material. Eu não dou conta. Essa estrutura, o poder econômico... a democracia é do poder econômico, do tempo na TV. Mas a gente vai conseguindo aos poucos, com garra, com luta. Convido as mulheres, se acreditarem nisso a construírem com a gente, a juventude, os idosos.

Porque a senhora escolheu disputar uma vaga ao Senado?
Foi decisão unânime do partido. Pensei em me candidatar a estadual. Mas avaliaram que nesse momento para a construção do partido, para a divulgação das idéias, seria melhor... já ouve fases em que eu não tinha nem um minuto em TV, em nada. Avaliamos que como candidata ao Senado temos mais espaço porque são poucos os candidatos.
 
São muitos candidatos a estadual, a federal e ao Senado são 10 mais ou menos. Temos mais oportunidades de divulgar e porque estando lá a gente estará representando o Piauí, mas significando as pessoas, a vida, a educação, a saúde. Já entrevistamos candidatos do PSTU, PCO, de partidos que são dissidentes do PT.

O candidato Gervásio Santos, do PSTU, nesse mesmo espaço, defendeu a extinção do Senado. Qual a opinião da senhora? Nosso partido ainda está discutindo essa questão. O fato é que não há sentido o Senado existir só para revisar questões da Câmara. Só tem sentido existir pára questões relevantes para o Estado e para o país. Outra coisa, isso temos bem claro, a questão de quanto ganham os parlamentares.

Defendemos a redução dos salários. Senadores e deputados federais ganham bem, tem moradia, transporte, educação, assessores... é muito. O que se gasta hoje no Brasil com parlamentares, é um dos países que mais gasta no mundo. Em percentual, é três vezes mais que o segundo colocado, que é a Itália.

Gastamos mais que a Itália

que é um país mais rico que a gente. A gente defende que o parlamentar ganhe menos e esse dinheiro seja investindo em mais casas, escolas, pagar melhor professores, médicos. A nação gasta 11 mil reais por minuto para bancar todos os deputados federais, senadores e assessores.

Eles ganham bem. Todo ano aumento o salário deles em percentual bem maior que o de professores, bancários, aposentados... legislam em causa própria.
 
E ainda tem o caixa dois, a corrupção, o roubo. Ainda tem questões de licitações, tiram por fora. São vorazes. Não se contêm. Enquanto a população fica com o Bolsa Família
de 100 reais.



Fonte: Jornal O Dia

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