Sarney está afundado até o pescoço em escândalos - Política - Gterra

Política

Redação do Gterra, 17/06/2009 às 09h47min

Sarney está afundado até o pescoço em escândalos

Comentaristas políticos da grande imprensa criticam imoralidades do Senado e garantem: Sarney está afundado até o pescoço em escândalos

Foto: Divulgação Sarney não esta convencendo
Sarney não esta convencendo
Edição Gterra

Articulistas de praticamente todos os grandes jornais do país estão chamando a atenção da opinião pública para a gravidade da crise moral em que o Senado mergulhou, desde investidura de José Sarney (PMDB-AP) na presidência da instituição. Dentre tantos outros comentários, o Jornal Pequeno selecionou ontem à noite os artigos publicados pelos jornalistas Helio Fernandes, da Tribuna da Imprensa; Alberto Dines, do Observatório da Imprensa; Melchiades Filho, da Folha de S. Paulo, e o comentário feito por Alexandre Garcia, da Rede Globo, no programa Bom Dia Brasil.

Garcia ressaltou na Globo, em passagem veiculada no Maranhão pela TV Mirante, que há menos de um mês, o presidente da Câmara dos Comuns, na Inglaterra, nem estava diretamente envolvido em gastos exagerados da casa, e ainda assim, renunciou à presidência e ao mandato.

Entretanto, no Senado de José Sarney há uma abundância de distribuição secreta do dinheiro do povo, pagando salários altíssimos a parentes de dentro e fora de casamento, há gente investigada e até presa pela Polícia Federal, gente demitida em público e readmitida em segredo - tudo protegido por atos escondidos, denunciando que sabiam que praticavam ilegalidades. Para Alexandre Garcia, isto tudo não foi erro técnico. Foi erro ético. A seguir a íntegra dos quatro comentários:

Não foi erro técnico, foi erro ético

Por Alexandre Garcia*

O que o Senado pode fazer? Afastar só o diretor geral não vai funcionar. O que tentam fazer é aquela tentativa que já foi usada para camuflar o escândalo, como foi a convocação da Fundação Getúlio Vargas, pela segunda vez, supostamente para reformar a administração do Senado.

Pelo que tem aparecido, pelo número de atos secretos, ainda há muito segredo a desvendar. Um grupo no Senado conseguiu descumprir todos os princípios exigidos pela Constituição para o serviço público: legalidade, moralidade, impessoalidade e publicidade. Nesse período, aparecem à frente Sarney, Renan e Jader. Na retaguarda, Agaciel, Zoghbi e Gazineo.

O senador Cristovam Buarque acha que é caso de polícia. Afinal, usaram o dinheiro dos impostos do povo, que é sagrado. Também sugere a renúncia de Sarney. Afinal, há menos de um mês, o presidente da Câmara dos Comuns, na Inglaterra, nem estava diretamente envolvido em gastos exagerados da casa, e ainda assim, renunciou à presidência e ao mandato.

Aqui, há uma abundância de distribuição secreta do dinheiro do povo, pagando salários altíssimos a parentes de dentro e fora de casamento, há gente investigada e até presa pela Polícia Federal, gente demitida em público e readmitida em segredo - tudo protegido por atos escondidos, denunciando que sabiam que praticavam ilegalidades. Agora, alegam erro técnico para a não publicação. Não foi erro técnico. Foi erro ético.

(*) No Bom Dia Brasil, de ontem

Vanguardas e atrasos

Por Melchiades Filho
Da Folha de S. Paulo

Talvez seja cedo para decretar a débâcle de José Sarney ou sentenciar que o ex-presidente da República cometeu um erro ao reassumir a direção do Senado. É verdade que a Casa vive momento de total descrédito, colhida por uma avalanche sem precedentes de denúncias - de nomeações secretas a servidores fantasmas, de mansões ocultas a aviões fretados.

É igualmente verdade que Sarney está afundado até o pescoço nos escândalos. A cada semana, precisa repetir um “eu não sabia”. Já teve de pedir desculpas, divulgar seu contracheque e devolver dinheiro.

Mas é verdade também que, graças à vitória de Sarney em fevereiro, o chamado “PMDB do Senado” voltou a capturar a atenção de Lula. O Planalto, que costuma desdenhar do Legislativo, não poderá ignorar o grupo que terá o controle da CPI da Petrobras, ameaça potencial à candidatura de Dilma Rousseff.

Assim como é verdade que, da privilegiada posição no Congresso, o ex-presidente pôde zelar por sua rede de influências no setor de energia. Uma lei foi aprovada para permitir à Eletrobrás fazer compras a toque de caixa. O sarneyzista Edison Lobão é o ministro envolvido na regulação do pré-sal.

É verdade, ainda, que a PF ficou mais “republicana” e diminuiu a publicidade dos inquéritos que investigam obras nos Estados em que o clã Sarney atua (Operação Navalha) e transações financeiras de empresas da família (Boi Barrica). Por fim, é verdade que, desde fevereiro, o TSE julgou três governadores e beneficiou o PMDB nos três casos. Derrotada nas urnas, Roseana levou o Maranhão no tapetão.

Como se vê, Sarney segue ocupado com o exercício do poder. É isso que o move, não os aplausos - nunca os recebeu, nem pela transição para a Nova República. Será uma surpresa se entregar os pontos porque a “biografia foi manchada” pelos vícios do Senado. É mais provável que a apoplexia dos últimos dias seja o preparo do contra-ataque.

José Sarney à deriva

Por Alberto Dines

Não são poucos os jornalistas que se sentirão aliviados no dia em que a Folha de S.Paulo anunciar que José Sarney, seu colaborador das sextas-feiras, licenciou-se, aposentou-se ou ganhou o Nobel de Literatura e, por isso, deixará o jornal.

O vexame não atinge apenas os jornalistas que trabalham na Folha, familiarizados com a simbologia da Página 2, onde germinou a extraordinária ascensão do jornal em junho de 1975. A presença de Sarney nesta página é afronta gremial, corporativa, mexe com os brios dos profissionais brasileiros empenhados em fazer do jornalismo o ofício da decência e da consciência.

Apesar do maciço monolitismo que domina a grande imprensa, a Folha de S.Paulo conseguiu a façanha de ficar sozinha no incrível apego ao ex-presidente da República. Em apenas cinco meses, depois de uma controversa carreira de mais de meio século, o senador converteu-se em unanimidade nacional: o mar de lama que afoga nosso Legislativo é fruto da sua leniência e da sua complacência com a malfeitoria e a prevaricação.

A direção da Folha sabe disso, há tempos admite que a permanência de Sarney no seu quadro de colaboradores e amigos respinga na sua imagem nódoas indesejáveis, compromete a sua história, coloca suspeições onde só deveria existir transparência.

Os responsáveis pelos destinos da Folha, agarrados às birras juvenis, perderam uma magnífica oportunidade de dissociar-se da figura de Sarney em fevereiro, quando foi novamente alçado à presidência da Câmara Alta e à chefia do Legislativo. Outros colaboradores com currículos mais respeitáveis e em posições potencialmente menos conflituosas foram afastados sem dor, com naturalidade. Sobretudo sem ruído.

Atração fatal – No caso de Sarney, há uma estranha e perturbadora atração, verdadeira atração fatal: o jornal que se jacta de ter o rabo preso com o leitor tem o dito-cujo preso com o destino do parlamentar que no momento encarna a degradação do processo político.

Os estrategistas da Folha imaginaram que seria possível mantê-la distante das estripulias do senador. Quando os seus concorrentes Estado de S.Paulo e, logo em seguida, O Globo começaram a desvendar a incrível novela dos atos secretos, evidenciou-se que a Folha – como, aliás, era previsto – encalacrava-se junto com o seu dileto articulista.

O furo com a denúncia dos 300 atos clandestinos coube aos repórteres Rosa Costa e Leandro Colon, do Estadão, na quarta-feira (10/6). Surpreendidos, Folha e Globo entraram com naturalidade no assunto na edição seguinte (quinta, 11/6). Vocacionada para protagonismos, imaginava-se que a Folha logo trataria de ultrapassar o Estadão.

Quem se juntou ao Estadão foi O Globo, na sexta-feira (12/6), em reportagem de Gerson Camarotti: os atos secretos não eram 300, mas quase o dobro – 500. A Folha ficou visivelmente para trás. Neste dia, na discreta chamada na capa, o jornal explica que uma comissão examina desde 1995 os privilégios produzidos pelos atos secretos.

Sarney fora da pauta – Para disfarçar o desconforto, a Folha opinou no sábado, mas distanciou o escândalo da pessoa de Sarney: “Senado secreto” foi o título do principal editorial da Página 2. O nome do fiel colaborador não aparece uma única vez, embora aparecesse com destaque no noticiário dos dias anteriores.

O Estadão também opinou no sábado, mas ao contrario da delicadeza do concorrente entrou de sola com um editorial sob o título “Corrupção secreta”. O envolvimento de José Sarney é detalhado num extenso parágrafo.

Quem tocou na complicada relação de Sarney-Folha foi o colunista Clóvis Rossi, o mais antigo da Página 2, que na edição de domingo (14/6) desculpa-se pelo atraso em entrar no assunto: “A demora não se deve, creia-me [dirigindo-se ao leitor], à preguiça, à desatenção ou ao desejo de preservar o colega do espaço ao lado nas sextas feiras, o senador José Sarney, ao contrário do que suspeitam alguns leitores.”

A demora deveu-se, segundo o jornalista, à incredulidade: “...o que há mais para dizer sobre um caso destas proporções? Xingar a mãe?” O libelo encerra-se com dinamite pura: “O pior é que não tem saída, porque a saída depende dos próprios senadores, cúmplices, por ação ou omissão, do aparelho clandestino que era uma Casa de Leis”.

Sarney está ferrado: a Folha jamais admitiria desvencilhar-se de um incômodo parceiro apenas para satisfazer “alguns leitores” exigentes e inconformados. Agora, com o decisivo empurrão assinado e avalizado pelo mais antigo articulista da Dois, está armado e acionado o cronograma para a saída de José Sarney da Folha de S.Paulo. Aleluia! Clóvis Rossi merece um prêmio pela façanha.

(Alberto Dines - www.observatóriodaimprensa.com.br)




Fonte: Jornais

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