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Redação do Gterra, 22/02/2010 às 07h52min

Bolsa Família nas mãos do comércio

Cartões de benefício ficam com comerciantes, que têm senha dos índios, e controlam quanto têm de saldo para as compras

Foto: LUIZ COSTA Alimentação das crianças é precária, com muitas guloseimas e açúcar
Edição Gterra

Os cartões-benefício do programa Bolsa Família da maior parte dos cerca de 2 mil índios da etnia Maxacali que vivem nos municípios de Bertópolis e Santa Helena de Minas, no Vale do Jequitinhonha, ficam em poder de comerciantes das duas cidades e da vizinha Machacalis, onde os índios fazem compras. Cabe aos próprios comerciantes, que retêm também as senhas dos cartões, dizer aos índios qual é o saldo e o quanto do dinheiro resta para as próximas compras.

A maioria dos maxacalis é analfabeta, e grande parte dos índios sequer fala português. Considerada a etnia mais pobre entre as 11 que permanecem em Minas e no Espírito Santo, os índios vivem em condições precárias de saneamento básico, e correm risco de novas epidemias a qualquer momento. O alcoolismo é outro problema grave. Em janeiro deste ano quatro bebês da etnia morreram de diarreia, causada por uma bactéria relativamente comum à maioria das pessoas, a Escherichia coli .


A denúncia do esquema dos cartões foi feita no início deste mês pelos prefeitos de Bertópolis, Lauro Alves Jardim (DEM), e de Santa Helena de Minas, Milton Trindade (PSDB), e vai ser investigada pelo Ministério Público Federal e pela polícia. De acordo com a vereadora em Santa Helena de Minas e liderança indígena da região, Maria Diva Maxakali, os índios das tribos deixam os cartões com os comerciantes por comodidade, e, em sua maioria, não fazem ideia do valor dos produtos adquiridos. "O dono da loja fica com o cartão, e vende a compra do mês. Mas é o comerciante mesmo que cuida do cartão, do extrato. É tudo na boa fé. São poucos os que sabem exatamente quanto dinheiro entra e quanto sai", garante.

Ainda segundo ela, em muitos casos os benefícios são revertidos em dinheiro vivo e repassados aos índios, que usam o recurso para comprar cachaça. Como a venda de bebidas alcoólicas aos índios é proibida por lei, a pinga é comprada em alguns bares ou por atravessadores, por até R$ 50 a garrafa, garante a líder indígena. A reportagem tentou contactar, no comércio, casas que ficam com os cartões. Ninguém assumiu a prática.

Atualmente, a maior fonte de renda dos maxacalis da região são repasses de programas federais, como o Bolsa Família. O dinheiro é usado em compras, feitas na cidade, que servem para sustentar a família. Essas compras são complementadas com escassas roças de subsistência, de onde as mulheres da tribo plantam e colhem mandioca, banana, cana de açúcar, abóbora, milho e feijão.

Segundo a dentista Emilly de Oliveira, que há oito meses atende à tribo Vila Nova, em Bertópolis, outro problema grave são os produtos comprados com os recursos pelos índios. "A maioria das compras são refrigerantes, biscoitos e balas. As índias, muitas vezes, compram fardos de cinco quilos de açúcar, que comem puro. O resultado é a subnutrição infantil e um número alarmante de cáries e outros problemas bucais", comenta.

O problema é mais grave entre as mulheres. Isso porque, cada vez que nasce um menino na tribo, a mãe tem direito a repasses de quatro meses de bolsa maternidade e bolsa-amamentação. Os repasses são feitos de uma vez só, o que significa que elas recebem, por filho, coisa de R$ 1.500. O dinheiro é praticamente todo empregado em guloseimas e, raramente, em material de construção.

Há cerca de um ano, alguns moradores das tribos vêm usando os recursos também para comprar cimento, tijolos e telhas de barro, que aos poucos começam a substituir o pau-a-pique e o barro pisado nas casas das aldeias. De acordo com os próprios índios, as casas diferenciam quem bebe e quem não bebe na tribo. Quem gasta dinheiro com cachaça ou guloseimas, segue em casas de pau-a-pique. Quem economiza e vive das roças, melhora a própria casa.





Fonte: Hoje em Dia MG