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Política

Redação do Gterra, 22/08/2010 às 10h57min

Tortura eleitoral gratuita na TV

Mesmo com a proximidade da eleição, programas televisivos ainda não caíram no gosto popular


Edição Gterra


Rio - Apesar dos gastos milionários e da facilidade de entrar nas casas de milhões de eleitores todos os dias, o horário eleitoral gratuito não agrada à maioria. Mesmo entre os indecisos, são poucos os que não rejeitam a hipótese de acompanhar os programas para escolher seus candidatos.

“Não vejo nunca. Na minha idade nem sou obrigado a votar mas, mesmo que decida fazê-lo, não vou me ligar nessa falação”, diz o aposentado Benedito Ramos, 74 anos, num bar no Bairro de Fátima, Centro do Rio, onde bebe com a amiga Maria Aparecida Amorim, 38. Esta tem opinião diferente. “Acho que ajuda na escolha. Já mudei meu voto ao assistir o programa”, contou.

No restaurante do outro lado da rua, quatro amigos jogam conversa fora, enquanto nas duas TVs os postulantes ao governo do estado, à Assembleia Legislativa e ao Senado tentam chamar a atenção. Em vão. “Já tenho meus candidatos e acho o programa um saco. Eles não falam nada que preste”, diz o portuário aposentado Lenine da Silva Porto, 61, eleitor de Dilma Rousseff, candidata à Presidência pelo PT.

Na mesa, apenas o funcionário público Joselito Brito Diniz, 45, discorda. Para ele, o horário político serve para que o eleitor compare o que o seu candidato diz com o que os adversários dizem dele. “Trabalhei com os ex-governadores Garotinho e Rosinha, sei o que fizeram. Observo os adversários deles mentirem e me divirto”, sustenta ele, que vota em Fernando Peregrino (PR) para governador do Rio e no tucano José Serra (PSDB) para presidente.

A seu lado, o engenheiro civil Paulo Roberto Pereira, outro eleitor de Dilma, só acha o programa válido para os candidatos a cargos majoritários. “Os candidatos a presidente e a governador podem, assim, conquistar os indecisos. No caso dos deputados, acho que isso não acontece. É só conversa fiada”, alfineta. Outro conviva, o advogado Duval Guimarães Júnior, é curto e grosso. “Quando começa, mudo para um canal por assinatura”, diz ele, que vota em Dilma “pela continuidade do governo Lula”.

Em outro restaurante, na Lapa, os comerciantes Vicente Vilela, 59, João Pinheiro, 61, Pedro Pinheiro, 52, e a administradora de empresas Genilda Figueiredo, 37, almoçam e conversam animadamente, ignorando a TV. Vilela diz que a propaganda é um “mal necessário”. “Assisto com desprazer. Deveria haver outra maneira de apresentar os candidatos”, reclama, referendado pelos amigos. Na mesa, todos declaram voto em Marina Silva, candidata a presidente pelo PV.

No Morro do Borel, na Tijuca, a dona de casa Simone Marques, 39, é suscinta ao falar sobre o seu desencanto com a política. “Acho que não ajuda em nada a escolher o candidato”, afirma. Ela ainda não decidiu em quem votar. Já o cabo da Marinha Rodrigo Nascimento, 26, se interessa mais pelo tema. “Procuro assistir, para fazer uma escolha mais embasada”. Contente com a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), pretende ajudar o governador Sérgio Cabral (PMDB) a se reeleger.

Já a aposentada Gláucia Nascimento, 54, se diz indecisa, mas não tem muita fé no horário eleitoral. “Prefiro acompanhar pela imprensa, é mais objetivo. Até presto atenção nos presidenciáveis, mas os deputados eu passo. Tem gente que nem sabe falar, quanto mais se comunicar com o eleitor”, opina, apoiada pelo marido, o técnico de contabilidade Carlos Augusto Santos, 56: “Essa propaganda não serve pra nada”.

Especialista acha pior que a ‘Voz do Brasil’

Segundo especialistas, o formato engessado, a predominância do marketing e a obrigatoriedade afastam o eleitor da propaganda política na TV. Para o professor da Uerj Antônio Brasil, a exibição obrigatória dos programas em cadeia nacional, no horário nobre, vai contra a democracia. “É pior do que a ‘Voz do Brasil’. Não há discussão de propostas ou dos absurdos ditos pelos candidatos. É o triunfo do marketing, que o eleitor já percebe e rejeita”, diz Brasil, coordenador acadêmico do Instituto de Estudos de Televisão.

O sociólogo Fábio Gomes alerta que os programas eleitorais são produzidos para atingir o eleitor pela emoção, que é subjetiva. “Se é bem feito, passa a impressão de preparo do candidato; um programa pobre dá a entender que não há chance de vitória. Daí, as belas imagens, depoimentos emocionados e altos gastos de produção”, opina ele, que defende o formato: “Se o horário eleitoral for extinto, só terá acesso à TV quem tiver muito dinheiro, reduzindo a diversidade na representação política”.






Fonte: ALESSANDRO FERREIRA/O Dia RJ